quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Diário de viagem, p.05: ZAKINTHOS e CORFU

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Sábado, 24.09.2011
ZAKINTHOS.


São sete e meia e a luz da manhã começa a atravessar a cortina. Eu não uso o black-out, porque gosto de ver o sol nascer. Mas vejam a compensação de acordar cedo - todo dia é assim e não me canso:



Toda cidade aqui tem mais de um nome. O outro nome de Zakynthos, é Zante. Fica na ilha de mesmo nome, a terceira em extensão no Mar Jônico. 
Durante a noite saímos da área do mar Egeu, a leste da Grécia e entramos em águas do Jônico, no lado oeste.
Mar Jônico é um braço do Mediterrâneo, ao sul do Mar Adriático. É por aí que vamos contornando a Grécia. A ilha que visitamos hoje é Zakynthos e fica no mar Jônico, bem perto da península grega do Peloponeso, nome famoso na História pois aí se localizava Esparta, a potência da Grécia Antiga, rival de Atenas. Essas cidades-estado enfrentaram-se na Guerra do Peloponeso - nome que me leva de volta às aulas de Història Geral de Mère Malena, na segunda série ginasial do Colégio Sion. Por isto, quando a guia diz "Peloponeso", eu aplico as orelhas para captar sua fala.


Charmosa ruina de antigo monastério.

A inglesinha que nos guia fala muito depressa, fica difícil entender. Mas alguma coisa se pesca, claro, com alguma boa vontade e ajuda da Flora. Por exemplo, captei a lenda de um monge solitário, homem muito rico que deu toda a fortuna aos pobres, tipo São Francisco, e recolheu-se a um monastério. O que mais se vê na Grécia são monastérios e capelinhas, prova da religiosidade das gentes que povoaram esta terra. O santo padroeiro de Zakynthos é São Dionísio, que foi abade, até sua morte em 1624,  no Monastério de Anafonítria, dedicado à Virgem Maria, o mais antigo da ilha. A esse santo, que tem o mesmo nome mas não é o mesmo Saint Denis, padroeiro de Paris, são atrubuídos muitos milagres. O que não entendi, por limitação linguística, é se o santo é o mesmo monge da lenda. 
 
"Blue Caves"-  (foto do Google)
Zakynthos é um dos maiores centros turísticos da Grécia, procurado por celebridades e milionários do Primeiro Mundo, devido à beleza de suas praias de areias brancas e águas cristalinas e aos hotéis de alto luxo. Uma atração peculiar são as "Cavernas Azuis", escavadas pela água do mar em grandes penhascos, onde o fundo de seixos calcáreos muito brancos destaca a cor turquesa das águas e reflete a luz do sol com efeitos espetaculares. Mas não há acesso por terra,  motivo pelo qual não pudemos ir lá. A única forma de se ver ou chegar a essas praias é por mar e em botes pequenos. Existem programas de excursão de um dia, em embarcações locais, com paradas para contemplação e banhos de mar.

Logo ao chegar à cidade, perto do porto, paramos na praça principal,onde há prédios de construção recente, contrastando com uma igreja antiga, a única edificação que sobreviveu a um terrível e famoso terremoto com incêndio, em agosto de 1953, e está restaurada.
As capelinhas que salpicam vales e montanhas são particulares e foram construídas em agradecimento a Deus, pelas famílias dos sobreviventes.
A excursão foi das mais confortáveis que tivemos, porque o trajeto foi todo feito de ônibus, com paradas nos pontos mais interessantes.  Vimos oliveiras por todo lado e a expressão mais repetida pela guia era "olive oil", referindo-se às árvores e à indústria caseira de azeite, sabonetes e outros produtos feitos de óleo de oliva.

Visitamos uma vila na montanha, onde havia barracas para comércio de artesanato local. Os bordados são muito bonitos, mas não comprei porque só aceitam dinheiro vivo e eu estava com pouco. (Uma forma frustrante de fazer economia).




Intervalo para descanso e café.
O ônibus nos levou por muitas montanhas com vistas maravilhosas, por estradas muito estreitas e tortuosas. Às vezes é difícil fazer curvas, outras vezes não passam dois veículos, um tem que recuar.
No centro da cidade, encontro um caixa eletrônico e pego novos euros. Mas é sábado e as lojas estão fechadas. Comércio interessante, com muitas casas de jóias e moda - sou obrigada a continuar, a contragosto, com minha política de contenção de gastos.
Ao vivo elas pareciam maiores!
Aberta, só uma lojinha de souvenirs, onde pude comprar umas lembranças, inclusive um lindo sino, miniatura de porcelana pintada. Gostei da gentileza com que fomos tratados  nessa única loja, mas lamentei que um país em situação econômica tão crítica não esteja empenhado no esforço de aproveitar a disposição dos visitantes para umas comprinhas na tarde de sábado. 
A última imagem da cidade que guardei foi a de um mercadinho com legumes expostos na calçada - cada cebola enorme!


Domingo, 25.09.2011
CORFU


Corfu, vista de minha cabine.
Chegamos a Corfu,  navio atracado no porto, mas eu não fui a terra. Esta é a principal cidade da ilha de mesmo nome, onde fica a Universidade Jônica. Corfu ou Córcira é uma ilha grega do mar Jônico situada na costa da Albânia, de que é separada por estreitos. Seu nome em grego é Kerkyra.
Flora e eu não nos inscrevemos na excursão de hoje, mas Márcia e Ary aproveitaram tudo, e confirmam a beleza do local e de sua história.

Eles também amam o nascer do sol...
As lendas de Corfu remontam aos tempos da mitologia grega, referindo-se a símbolos ligados à água, como Poseidon, o deus do mar e Asopos, deus do rio. Consta que Poseidon apaixonou-se por uma filha de Asopos e a raptou, levando-a para uma ilha deserta à qual deu o nome da amada, Kerkyra, o nome grego de Corfu.
Elizabeth de Austria
Em 1869, a imperatriz Elisabeth da Áustria – (Sissi, a Imperatriz - lembrar do filme com Romy Schneider) - fez ali uma mansão, o Achileion Palace, com vista para o Mar Jônico e belos jardins enfeitados de estatuas clássicas da história e mitologia gregas, principalmente de Aquiles, o heroi grego que a imperatriz admirava, e no qual se inspirou para dar nome ao palácio.

Aquiles

Achileion Palace
     
Vista da área da piscina, com mesas do Pool Grill.
Tendo me desencontrado da amiga Flora, no programa matinal, resolvi passar o dia explorando o navio. Curti a piscina, almocei uma salada no Pool Grill e depois, andei por todos os decks, para conhecer tudo: lounges, bares, biblioteca, salas de jogos, salas de conversação, galeria de artes, vitrines da butique.
Experimentei um pouquinho de tudo. No saguão, fica um grande quebra-cabeça com pessoas em volta, tentando montar as peças, jogo coletivo de participação espontânea. Alguns chegam, outros desistem, a paisagem marinha está longe de se completar. Observando tudo com interesse, distraio-me e passo em vários lugares sem fotografar. Agora lamento, mas está feito.
Visão do porto de Corfu, a partir do terraço do La Veranda.
Esta é a última parada em território grego. Vamos para o Mar Adriático, pela costa da Albânia. A próxima parada é em Montenegro.








terça-feira, 25 de outubro de 2011

Diário de Viagem, p.04: SANTORINI e MONEMVASIA

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Quinta-feira, 22.09.2011
SANTORINI, Grécia
O dia amanhece chuvoso, o sol nasce entre nuvens, uma bola alaranjada sobre as montanhas que se aproximam, enquanto o navio chega ao porto de mansinho.
Café bem cedo - quem manda dormir tarde? Encontro às oito no Constellation Theater, para organização dos grupos que vão sair em excursão.

Hoje estamos no lugar mais famoso da região: porto de Santorini.
Santorini é um arquipélago de ilhas vulcânicas, onde não há rios e a água é escassa. No entanto, há uma economia produtiva além do turismo, sua principal fonte de renda. Ganharam minha admiração os gregos, por serem capazes de vencer condições tão desfavoráveis. Não é à toa que tiveram papel tão influente na formação da civilização ocidental.

Já dentro do tender a caminho da terra, o céu se abre, todo azul, refletindo-se na água. (foto)
A espuma branca no rasto da embarcação contrasta com a cor brilhante da água do mar. Eta prazer mais gostoso! Só sendo mineiro para entender esse êxtase visual!

Em terra, também tudo é branquinho e azul - ruelas, subidas e descidas, pequenas lojas ao longo de todo o percurso, com mil tentações. A configuração da cidade é bem característica, igual àquelas que a gente vê no cinema e na tevê. Adorável!


Não posso negar que o passeio foi muito cansativo - pelo trajeto e opções do lugar, que bom seria se durasse mais, com possibilidade de andar com calma e parar para descanso, sorvete, etc. 
O ônibus, na ida, leva-nos até metade da subida, nos abandona à própria sorte - sorte divina, diga-se, pois vamos curtindo a paisagem e o comércio, descobrindo novidades, fazendo comprinhas - e volta para nos esperar lá embaixo. A partir de certo ponto, porém, tivemos que acelerar o passo, ladeira acima, para retornar a tempo de pegar a condução de volta ao navio. Nesse trecho minha curiosidade foi despertada por muita coisa que gostaria de apreciar com calma e até comprar, se tivesse tempo!
Lá em cima - difícil de imaginar a altura que atingimos - estava a estação do teleférico, onde tomamos um dos bondinhos para 6 passageiros. Adorei, não só o espetáculo que se vê lá do alto, mas a sensação de vencer meu medo de altura.

No último momento, enquanto os companheiros se dirigiam para o ônibus, parei em mais uma das inúmeras lojas de badulaques, para comprar pulseirinhas de vidro, expostas do lado de fora. Escolhi algumas rapidamente e procurei um vendedor. Entrando na loja, não vi ninguém. Quando já desistia, apareceu uma senhora que estivera escondida atrás de uma estante de mercadorias. Ela me atendeu gentilmente e, quando saí, não pude deixar de pensar que eu poderia ter levado o que quisesse, sem que ela notasse... Com tanto turista, é muita confiança deixar tudo assim tão exposto!



Olha nós em Santorini: Ary, Márcia, Flora e eu. Vejam que céu azul!




Sexta-feira, 23.09.2011
MONEMVASIA, Grécia

Completamos hoje uma semana de viagem - e estou quase convencida de que o Inglês é a única forma de comunicação humana!
Foi o dia de Monemvasia, uma pequena península muito sem graça, com um morro de grande beleza sobre as águas. Tem uma parte antiga com valor histórico pouco explorado. Parece que o próprio pessoal de lá não acredita no potencial turístico da terra – os transeuntes, comerciantes e policiais que abordamos nem sabem dar informações estimulantes. Comércio fraco. Parece uma daquelas praias escondidas no litoral capixaba, como as conheci há meio século.

Para nos recuperarmos da canseira de ontem, Flora e eu decidimos não enfrentar a excursão de hoje que anunciava terrenos irregulares e grandes caminhadas.  Fomos, porém passear em terra. Flora precisava de um medicamento e, assim, lá fomos nós andando sem rumo, à procura de uma farmácia. Encontramos uma bem razoável. Depois percorremos ruas e lojas, mas nada que valesse um segundo olhar. Comércio de baixa qualidade, sabem como é? Por incrível que pareça, de onde menos se esperava, foi daí que veio a surpresa: numa loja de miudezas e armarinho, vimos os artigos mais bonitos que encontramos à venda na Grécia: jogos de chá de porcelana finíssima, com desenho elegante e estampa pintada a mão da melhor supimpitude, como diz meu cronista predileto do Estado de Minas. Claro que não era compra a se fazer assim, no meio de uma viagem, embrulho pesado, artigo supérfluo em casa. Mas que nos apaixonamos por essas xícaras, ah, isto é verdade.



A história deste lugar é muito interessante, pois sofreu várias invasões árabes e normandas no início do primeiro milênio da era cristã, tendo se tornado parte do Império Bizantino e sede do governo imperial a partir de 1460. Passou por diversas guerras e viveu sob a proteção ora do Papa, ora da República de Veneza, grande potência na Idade Média, e também do Império Otomano. É sabido – as agências de turismo o divulgam – que recentemente, o local tem crescido em importância econômica devido ao incremento do turismo na região. Os edifícios medievais foram restaurados e muitos deles convertidos em hotéis.


Para aproveitar bem o lugar, Ary e Marcia pegaram uma moto poderosa e exploraram os arredores. O que não falta por aqui são paisagens bonitas, para quem vai ao alto das montanhas e olha em direção ao mar.
Não fomos às praias, mas consta que são bem bonitas. Ao retornar ao navio, encontramos um grupo de artistas que tinha ido ao banho de mar. São bailarinas, dançarinos, acrobatas, cantores e cantoras que fazem os shows toda noite no Theater Constellation.
Agora vou tentar me entender com a internet, aproveitando os préstimos da filipina que nos atende no CLUB.COM. Já gastei quase todos os minutos pre-pagos e ainda não consigo acessar sozinha nem a navegação nem o email. Mas o iPad está cumprindo bem suas funções de ler e escrever...

Assim, chegamos ao fim de nossa primeira semana de viagem.










 

domingo, 23 de outubro de 2011

Diário de Viagem, P.03: MYKONOS e KUSADASI (Efeso)

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3ª feira, dia 20.09.2011
MYKONOS
Por causa do atraso na saída, passamos ao largo de Delos, onde deveríamos ter chegado de manhã cedinho. Mas à tarde já pudemos visitar Mykonos conforme programado, com seu comércio colorido nas ruelas brancas. Em cada esquina, um lugar mais lindo para se visitar, mar azul, céu claro e sol escaldante, que nada é perfeito demais. Um calor! Casas branquinhas, muitas capelinhas, calçamento de mármore, ladeiras e ruelas estreitas. O mármore não é sofisticação, é a pedra natural deste terreno. Paisagens inacreditáveis. Cada buganvilha mais colorida, todos os tons de vermelho e rosa! Tudo muito lindo: ao longe, mas bem visível, um casal nu na praia;  uma capela com um sino a disposição de quem o queira tocar e muitas capelinhas espalhadas pelas colinas que cercam a cidade.




Depois, um monastério, exemplo da riqueza da arte bizantina. Uma igreja simples por fora e suntuosa por dentro. As paredes externas são de mármore bem claro, com inscrições e ornatos em relevo, tudo bem bonito e suave. Por dentro, muito ouro e cristais, traços que serviram de inspiração para a arte sacra ocidental que resultou no rococó, diz o guia - se é que entendi bem o seu inglês...
O monge zelador recomenda: quem entra na igreja, deve sair de ré, para não dar as costas ao altar. (Vejam o monge sentado ao fundo da foto)
Para completar, petiscos com licor de anis, num bar com mesinhas na varanda, na praça ao lado do monastério.
Mykonos é deliciosa. Na mitologia grega, aí foi o teatro da batalha de Hercules contra os Gigantes. Seu nome é uma homenagem a Mykon, filho do rei de Delos, neto do deus Apolo. Seus primeiros habitantes foram fenícios, egípcios, cretenses e, por fim jônicos. Sua história, semelhante à das outras ilhas gregas, depois do apogeu da Grécia Antiga, passou por diversas dominações, especialmente de Veneza e Turquia. Em 1822 os gregos expulsaram os turcos, mas só conquistaram sua independência em 1830. No século XX, entre a primeira e a segunda guerra mundial começou o fluxo de visitantes às ruínas arqueológicas de Delos e Mykonos, transformando essas ilhas no importante destino turístico de hoje.


4ª feira, dia 21.09.2011
KUSADASI - Éfeso/ Turquia.

Estamos no Mar Egeu que faz parte da bacia do mar Mediterrâneo, situado entre a Europa e a Ásia. Estende-se da Grécia, a oeste, até a Turquia, a leste. Ao norte, possui uma ligação com o mar de Mármara e o mar Negro através do Dardanelos e do Bósforo. O mar era tradicionalmente conhecido como o Arquipélago, ou "mar principal"  devido a sua importância para os gregos. Por metonímia, o termo também se aplicava ao conjunto das ilhas do Egeu e, posteriormente, veio a designar qualquer conjunto de ilhas. (Wikipédia)

Atracado o Seven Seas Voyager ao Porto de Kusadasi, Turquia, visitamos Ephesus, localidade de onde o apóstolo São Paulo foi expulso porque chegou à cidade com sua mensagem que reprovava o culto aos deuses - e o povo de lá ganhava a vida fabricando imagens da deusa Artemísia em mármore. Foi para esse povo que Paulo escreveu as "epistolas aos efésios", no Novo Testamento. João, o evangelista, instalou-se nessa cidade turca, para onde levou Maria, pois tinha sido encarregado por Jesus de cuidar de sua mãe. Não sei como nem quando os idólatras desta terra foram convertidos, mas o culto a Artemísia foi substituído pelo cristianismo. Uma casa onde supostamente Maria pode ter morado é objeto de visitação turística e religiosa.
Percorremos um grande sitio arqueológico, com belas ruínas em mármore de templos, teatros, biblioteca e banhos públicos - uma lição de história e cultura. Na saída, um conjunto de cordas tocava belas melodias.

A realidade atual faz juz à fama de comerciantes que os turcos grangearam pelo mundo a fora. Junto às ruínas, uma feira ao ar livre, com lojas e barracas apinhadas de mercadorias de baixo custo, imitações variadas de objetos de desejo: relógios, bolsas, lenços, roupas. A profusão de mercadorias lembra bem  Ciudad del Leste na nossa fronteira com o Paraguai, sem a ênfase nos eletrônicos...


Já nas proximidades do porto (foto), o comércio é simplesmente sensacional. Tem de tudo, do mais fino gosto ao mais puro cafona que facina o turismo cosmopolita. Adorei. Ainda bem que tenho muito peso na mala e pouco no bolso, para compensar a falta de juizo...
Na volta ao navio, passa-se por um belo free shop, grande e bem sortido, as mais legítimas e famosas marcas internacionais, em contraste com o mercado lá de fora.



Hoje é aniversário da Márcia e o objetivo primeiro desta viagem foi esta comemoração. Estou feliz de participar desta alegria, principalmente agora que conheço melhor e me encanto cada vez mais com a homenageada. Tivemos um jantar à altura da data, no restaurante Signatures - viva a Flora que tem iniciativa e bom gosto para programar um evento! Antes, na cabine do casal, a convite deles, brindamos com champagne - liquidando a garrafa com que o navio dá as boas vindas a seus hóspedes. (A minha está guardada no frigobar para uma ocasião apropriada, despedida, talvez...).

sábado, 22 de outubro de 2011

Diário de viagem, p.02: ATENAS

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Segunda-feira 19.09.2011
ATENAS
ATENAS: A Acrópole vista de dentro do Museu.

Atenas! Chegamos sábado à tarde, dia 17, conforme previsto, e fomos para o hotel Royal Olympic, uma beleza!
Jantamos num restaurante chamado Dionisius- recomendo! A vista, a lua e a comida, tudo acima das expectativas. A visão noturna da Acrópole toda iluminada é de tirar o fôlego.




Na manhã seguinte, domingo, dia 18, uma volta de ônibus pelos pontos turísticos da cidade e visita à Acrópole, numa manhã quentíssima. Muitos degraus irregulares, pouca sombra, nenhum intervalo nem assentos para descanso.



Não consegui chegar ao topo, quase morri de calor e cansaço. Pouco aproveitamento também no museu lindo e moderno, recentemente inaugurado. Eu não suporto mesmo o calor e as caminhadas acidentadas. Que fazer?
Outro restaurante fora de série é o Orizontes, no pico mais alto da cidade: chega-se lá de "teleférico", um trenzinho em plano inclinado e não um transporte por cabo como eu achava que seriam todos os teleféricos. De lá se vê toda a cidade, uma beleza!

Completamos a noite com um brinde no terraço de nosso hotel - outra vista maravilhosa! - brinde aos 29 anos de casamento de Ary e Márcia. A propósito, estou encantada com o casal. Gente fina!



A segunda feira, 19 de setembro, foi um dia muito longo que ainda não acabou, apesar de já serem quase 4 horas da manhã de terça!
Um dia que merece ser narrado, mas acho que vou dormir.
Estou esperando a sensação de ver o navio começar a navegar, mas ele permanece imóvel no porto.
Boa noite!

NOTA: quando acabei de escrever a ultima linha e me levantei, olhei pela porta de vidro que me separa da varanda e... já não vi as luzes do Porto de Atenas. O Regent Seven Seas Voyager navegava suavemente, sem balanço e sem ruído - imperceptivelmente! Que emoção! Aqui na cabine, sozinha, comemorei como se fosse um gol!

Dia seguinte, de manhã: Vou completar o que faltou na narrativa de ontem:
Desde a véspera, no hotel, tínhamos recebido o aviso de que haveria um atraso no horário de embarque, para os últimos ajustes na decoração do navio que tinha sido todo reformado. Ficaríamos, pois, em hospedagem provisória depois de deixarmos nosso hotel em Atenas.
Ruas do centro de Atenas.
Carece dizer que a segunda-feira foi um dia comprido: Pequeno passeio pelo comércio de Atenas, depois checkout no Royal Olympic, apresentação no Porto, translado pra um resort a mais de uma hora de distância. Foi um programa surpreendente,inesperado que tinha tudo para ser irritante, mas que se mostrou uma surpresa maravilhosa. Flora e eu, separadas dos nossos sobrinhos companheiros, passamos a tarde hospedadas num resort de primeiríssima linha, numa praia nos arredores da cidade, aguardando a condução que nos levaria a bordo.
O almoço foi num dos restaurantes do hotel, à beira-mar - a observar o pessoal lagarteando numa linda enseada, praia de areia, cais com escadinha de piscina, pequenas embarcações e wind surf . Na verdade, tão bem servidas de comidas, sorvete e vinho branco, e tão encantadas com a paisagem e a boa vida dos hóspedes, que por pouco não perdemos o ônibus. Com tanta distração, esquecemos da hora e nem pudemos ir ao quarto para uma refrescada.
Embarcamos depois do anoitecer e começou, no navio, uma vida boa que não tem tamanho! Essa noite foi de expectativa. Todos foram dormir, mas eu não consegui. Deitava-me e, insone, voltava excitada à varanda da cabine. Cais movimentado (sem barulho, diga-se) debaixo de minha sacada, carretas e paletes descarregando no navio o suprimento para o cruzeiro. Esperei até quase as 4 hs. ocupando-me em escrever estas mal traçadas e, de repente, o Porto havia sumido, o Voyager já navegava...
Minha cabine. Estou escrevendo na mesinha da sacada, de onde tirei esta foto.
Mas ontem à noite, eu estava na escrivaninha à esquerda, quando o navio se moveu.

Diário de Viagem, p.01: RUMO À EUROPA

Rumo à Europa via TAP

Para partilhar neste blog as emoções de uma linda viagem, vou aos poucos editando minhas anotações. Pretendo publicá-las em etapas. Por isto, o dia de publicação registrado no Blog de Ledices não corresponde à data de cada título - quando os fatos narrados realmente aconteceram.
16.09.2011 - Rumo à Europa Via TAP
Malas prontas! Dia chuvoso, nublado. Espero que o trânsito seja camarada para eu chegar cedo a Confins.
É a primeira vez que faço sozinha um vôo internacional. E tudo, na primeira vez, tem um sabor especial...
Vou em vôo direto até Lisboa, onde me encontro com os companheiros de viagem: Flora, Márcia e Ary. Uma noite de sono no avião e estarei pronta para a aventura inusitada a bordo de um navio enorme, experiência que eu jamais pensara em enfrentar. Na verdade meu medo era do balanço das ondas, coisa superada pela avançada tecnologia que mantém as naves em equilíbrio.
Estou preparada para ficar sempre bem disposta e aproveitar ao máximo tudo o que o cruzeiro me der de bom.
De Lisboa a Zurique é um pulo. Depois, outro para Atenas e, após um período de curtição em terra, partir para as belezas no mar Egeu, no mar Jônico e no Adriático. Da Grécia à Itália, com paradas também na Turquia, Montenegro e Croácia, são dez dias de mar, portos, ilhas e montanhas, cada um com sua história e seus mitos. E, por fim, rever Veneza!

Lá vou eu!

Foto: encontro inesperado em Confins, com Carla e seu grupo a caminho da Itália, para um tour de bicicleta!!!






terça-feira, 16 de agosto de 2011

Dia dos Pais

Recebi hoje a mensagem do Dia dos Pais da Escola Lúcia Casasanta, um texto da Coli, a cara dela. Ela escreveu sobre o pai dela que conheci bem. Acho que preciso reproduzir aqui esta mensagem:

AOS PAIS DOS NOSSOS ALUNOS E A TODOS QUE DESEMPENHAM ESTA FUNÇÃO


Procuramos muito um texto ou uma poesia que fale de “Pai” para enviar nesta véspera do “Dia dos Pais”. Não encontramos. Os que nós gostamos, foram enviados nos anos anteriores. Antes que possam ser enviados novamente, eu, Coli, tomei a liberdade de falar do meu pai para vocês, pais, avôs, padrinhos, tios e amigos dos nossos alunos. É só um depoimento. Recebam-no como uma declaração de afeto. De afeto e de admiração. Ser pai é tarefa de muita responsabilidade. Vocês a tem desempenhado com louvor. Parabéns! Recebam também um grande, um enorme abraço de todo mundo da escola! Pai faz muita falta. Sua presença é tão importante que, se não podemos contar com ela, tratamos de substituí-la por um avô, padrinho, tio, enfim, alguém que possa nos proteger. Porque essa é uma das funções do pai: nos proteger. Inclusive, de nós mesmos, educando-nos. Meu pai tinha a saúde frágil. Mas me protegeu muito. Estudava comigo, acreditou em mim. Com ele, aprendi a gostar de balas de café, a ouvir canarinhos e o barulho da chuva. Após o jantar, sentávamos na varanda para ver as estrelas. Ele, minha mãe e a gente – éramos 10 filhos. Deitada no chão, eu brincava com os besouros que vinham com a noite, enquanto os ouvia conversar. Eram conversas amenas, conversas de amigos, pois criança percebe o clima e o clima era de leveza, nesses momentos. Momentos felizes. Meu pai amava ler. No nosso quintal, havia uma outra casa: sua biblioteca. Quando criança, eu brincava de pegador entre as estantes e brincava com os livros. Fazia casinha de livros: parede de livro, telhado de livro... Enquanto isso, ele lia e estudava. Lia antes de dormir e madrugava para ler, antes de ir trabalhar. Ao voltar para casa, sempre havia – além dos caramelos! – um pacotinho de livros nas suas mãos. Os livros chegavam a nossa casa de toda parte do mundo! Meu pai adorava dar aulas e dizem que foi um bom professor. Acredito que sim, pois foi com ele que aprendi a gostar de ler. Era paciente ao me ensinar. Comentei, com alguns de vocês, que até os meus 11 anos tive muita dificuldade na escola. Eu não retinha as informações. Se, pela manhã, eu sabia o conteúdo, à tarde, já não me lembrava mais. Num tempo em que não havia diagnóstico nem tratamento para esse déficit, contei com a presença paciente do meu pai ao meu lado, durante alguns anos, estudando comigo com toda a paciência do mundo. Intrigado com o que via, é verdade. Certa manhã, ao perceber que eu não tinha a menor ideia do assunto que havíamos trabalhado intensamente no dia anterior, ele me disse uma frase fundamental para a minha autoconfiança: “- Engraçado, Coli, você não é burra!” Até hoje, me lembro do seu estranhamento. No início da adolescência, em compensação, já livre do meu problema, vivemos ótimos momentos com os livros. Meu pai, todas as noites, pedia que eu lesse para ele. A princípio, eu achava ruim: ouvia as vozes dos meus irmãos brincando; queria mais era estar com eles. Reclamava com minha mãe. Mas a resposta dela era sempre a mesma: – Seu pai está te esperando!E, então, aconteceu o “milagre”! À medida que minha leitura ganhava fluência, passei a adorar ler com o meu pai! Agora, eu é quem esperava ansiosamente para ler com ele, após o jantar. E, juntos, lemos de um tudo: de Julio Dinis e Julio Verne a Machado de Assis. Pouco tempo depois, meu pai morreu. Dizem que continuamos eternos enquanto alguém se lembra da gente. Acredito. Meu pai continua vivo na minha cabeça e no meu coração. Coli Caiafa

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Palmadas


Quando ouço notícia de que o Parlamento está bolando uma lei nova sobre tema pontual, isolado, da educação, já sei: lá vem bobagem. E é tiro e queda, vem mesmo.
Agora é a Lei da Palmada. Como se lei adiantasse alguma coisa para ensinar aos pais como se educa uma criança!
E, de quebra, o risco da mensagem ser mal interpretada, como sempre acontece nos assuntos mais delicados da educação, quando tratados à parte de sua fundamentação teórica e do seu contexto histórico.
As leis existentes já são suficientes para punir com rigor, como a qualquuer outro adulto, os pais que se excedam e cometam violência contra seus filhos. Se o poder público não dá conta dos casos graves de maus tratos, espancamento e abandono que vicejam por aí, como vai se ocupar do que acontece no dia a dia dos lares?
Melhor seria o investimento em campanhas educativas – pais precisam ser instruídos para educar, como se faz a favor da alimentação saudável e contra os vícios. Filho não vem com manual de instruções e a ansiedade em acertar pode gerar algum destempero, ainda que involuntário, passageiro e seguido de lágrimas de arrependimento. As palmadas corretivas e os gritos incontidos quase nunca são fruto de desamor, mas de despreparo, de desespero por acertar, de cansaço e frustração diante das dificuldades - pois educar não é fácil e paciência tem limites...
Uma luta sem trégua nos meios de comunicação, pelo esclarecimento, para mostrar que os castigos físicos podem ser substituídos pelo diálogo e outras formas de convencimento e até mesmo de punição – isso sim, esse combate é necessário.
Os pais dispõem de muitas alternativas para impor sua autoridade, não podem abrir mão dela, tem o dever de orientar e corrigir, mas precisam dar exemplo de autocontrole – entre outros. Cumpre-lhes mostrar aos filhos que é possível resolver conflitos, divergências e frustrações, sem uso da força e da violência – física ou moral.
Uma lei que proíbe palmadas, por via de interpretação apressada, pode gerar muitos mal-entendidos. Só de pensar um pouquinho, eu mesma já imaginei vários...

Beijos a vocês que visitam meu blog.
Ledinha

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Tchaikovsky

Para a netinha Helena, bailarina da Suite Quebra Nozes. 
Ao lembrar o encantamento de vê-la dançar com graça e expressividade, no fim do ano passado, em seu grupo de bailarinas coloridas, a Vovó vem lhe contar uma
HISTÓRIA VERDADEIRA:

A música da apresentação do balé da Escola Lúcia Casasanta, no fim do ano de 2010, chama-se “Suite Quebra Nozes” e foi feita especialmente para balé. Seu autor foi um famoso compositor russo, que viveu há muito tempo, há mais de um século e meio.
Tchaikovsky nasceu em 1840, na cidade russa de Votkinsk. Era um dos seis filhos de uma família de classe média e desde pequeno sentiu-se atraído pela música ao ouvir as canções populares cantadas pela mãe. Aos cinco anos, aprendeu a tocar piano.
Sua mãe morreu muito cedo. A família decidiu que ele deveria tornar-se um advogado e matriculou-o na Escola de Direito de São Petersburgo, onde estudou até os 19 anos de idade.
Ao encerrar os estudos, Tchaikovsky começou a trabalhar no Ministério da Justiça. Foi um péssimo funcionário, porque não gostava dessa profissão.
Com pouco mais de 20 anos, resolveu estudar música no Conservatório de São Petersburgo. Lá, ele seguiu cursos de teoria e composição musical e aprendeu piano, flauta e órgão.
Certa vez, ele foi ao teatro para assistir à ópera "Don Giovanni" de Mozart. Ficou profundamente impressionado e, nesse momento, resolveu dedicar-se inteiramente à música. Aí ele abandonou o trabalho no Ministério da Justiça.
Com grande esforço progrediu rapidamente. Foi logo convidado para ser professor do Conservatório de Moscou. Neste período, compôs suas primeiras obras e começou a se dar bem na nova profissão: realizou muitos concertos e sua música foi aclamada em diversas capitais da Europa.
Apesar do sucesso crescente, levava vida solitária e tinha um temperamento amargurado que o mantinha sempre triste. Não foi feliz no casamento. Só a música lhe dava bons momentos na vida.
Ele morreu em 6 de novembro de 1893, com 53 anos de idade, ao contrair cólera depois de beber um copo de água não fervida.
Piotr Il'yich Tchaikovsky, sem dúvida, é um dos mais conhecidos e admirados autores de música clássica de todos os tempos. Suas obras muito sentimentais e ricas em melodia, renderam a ele o título de maior compositor romântico da Rússia.
Embora se dedicasse mais à música sinfônica, as composições de Tchaikovsky que mais encantaram o público do mundo inteiro foram as músicas feitas para balé, tais como:
O lago dos cisnes,
A Bela Adormecida e
O Quebra-Nozes.

Foi com estas obras que o compositor  tornou-se mais conhecido e admirado.
(Informações selecionadas e resumidas do Google, Wikipedia)
 

Helena em maio de 2008. Elegância e prazer de dançar.



terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Como navegar neste blog

Aqui vão algumas dicas para quem não está habituado a visitar blogs:
 
 
1 - A primeira mensagem que aparece na tela é a mais atual. As outras vêm em ordem cronológica decrescente. Clique em "Postagens mais antigas" para ver outras.
2 - Você não precisa ler tudo: pode escolher um assunto ou tipo de texto, na coluna da direita (marcadores). Clicando no marcador, aparecem as mensagens do tema, sempre começando pela mais recente. Se você quiser ler as mensagens em ordem cronológica, comece pela última. Sugiro, por exemplo, que as Histórias do Bairro Sion, sejam lidas a partir da primeira postagem do assunto, ou seja, a última a aparecer.
3 - As mensagens são identificadas também por data, no arquivo do Blog. Por exemplo, clique no ano ou mês para ver as mensagens que foram postadas no período.
4 - Para entrar no espírito do blog, leia a Apresentação, clicando no marcador, ali na coluna da direita.

Aproveitem e apresentem seus comentários.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Nasce um bairro moderninho

(Quem se interessa pelo assunto de hoje - o bairro Sion - favor clicar alí, do lado direito, para ter acesso aos textos anteriores no marcador "Histórias do Bairro Sion".)

Corriam os anos 50.

O Colégio Sion dava vida ao bairro. Os ônibus especiais e os carros particulares iam e vinham, levando e trazendo as alunas e os professores, nos horários das aulas. Havia pouco movimento nas ruas. Por isto, era o maior sucesso quando surgia algum carro com um ou mais rapazes, para ver as meninas que saíam ou chegavam, ou para acompanhar o ônibus em seu trajeto. Afinal, ali era um fim de mundo, não era passagem para lugar nenhum. Quem ali chegava, só podia ser por causa do colégio...

Com a “discrição” própria da idade, as adolescentes mais ligadinhas logo apontavam, com cochichos e risinhos, a colega que seria alvo das atenções dos visitantes. No fundo, todas queriam ser, mas não confessavam. Na verdade, na época eram raros os admiradores que pudessem dispor de um carro para suas aventuras. Todos muito jovens ou de famílias em que apenas os pais dirigiam carros.

A propósito, naquele tempo, aqui, poucas mulheres eram motoristas. A primeira mãe que apareceu no colégio, dirigindo o carro da família para conduzir suas filhas, foi Dona Aurora, uma senhora fina e elegante viúva de Waldomiro Magalhães Pinto (fundador do Banco Nacional, irmão do poderoso banqueiro que viria a ser governador de Minas e senador da República). Ela dirigia seu carro com naturalidade e competência, como era já costume em centros menos acanhados do que Belo Horizonte.

Bem que meu pai dizia que era preciso viajar sempre, tomar um “banho de civilização”, para ampliar horizontes e ter a mente aberta para costumes diferentes. Essa postura vanguardista do maridão fez com que minha mãe também se tornasse exímia “chauffeuse”, como se dizia. Uma iniciativa muito prática, que deu agilidade à turma lá de casa e aproveitamento máximo ao carro que, anteriormente, passava o dia inteiro debaixo das árvores da Avenida Afonso Pena, enquanto papai trabalhava no centro da cidade. Assim, mamãe não precisava mais sair a pé ou tomar bonde e ônibus para fazer compras e outros afazeres. Minhas colegas ainda hoje lembram dela, linda e jovem senhora de cabelos grisalhos, sempre sorridente na direção do Chevrolet. Nós não tínhamos sofisticação suficiente para manter um motorista profissional...

Com o prolongamento da rua Grão Mogol e com o calçamento das ruas, o bairro Sion preparou sua explosão demográfica dos anos 60 e passou a ser um sucesso imobiliário. Casas novas, modernas, com suave colorido como se usava, esbanjavam revestimentos de pastilhas, coberturas sem telhado aparente e largas fachadas de vidro. Entre caminhos de pedra ouro preto, touceiras de folhagens verdejantes tentavam reproduzir em escala doméstica, mas com singela elegância, o paisagismo de Burle Marx, abandonando a tradição dos canteiros floridos e das trepadeiras nas varandas, marcas dos jardins de minha infância. Belo Horizonte se modernizava no bairro Sion. A arquitetura moderna deixa seu berço na Pampulha e, ali, é apropriada por jovens casais de uma emergente classe média alta, com bom gosto e interesse por qualidade de vida.

Enquanto o bairro se formava, crescia também a população pobre do Morro do Papagaio que, atraída pelo novo mercado de trabalho – principalmente serviços domésticos e construção civil - ia ocupando a encosta e mudando as características da antiga comunidade local.

Nessa fase da vida do bairro, eu me formei professora. Iludida e idealista, mas aplicadíssima. Sonhando em me casar e morar numa daquelas casas novas que surgiam nas ruas Grão Mogol, Chicago, Washington, Montevidéu. Sonhos não custam caro. Casas, sim.





quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A mensagem do Menino

O Oriente Médio nos impressiona hoje com seu viver belicoso, o ódio ancestral entre vizinhos, a grande dificuldade de viver em paz naquele mundo longínquo. Mesmo as lutas entre facções de traficantes de drogas no Brasil não chegam a ser uma pálida reprodução da encarniçada luta daquelas bandas. Mesmo porque, aqui, as escaramuças, por mais violentas que sejam, são atividades marginais, fora da lei. Lá, são a forma de expressão de grupos que se revezam, disputando eleições para constituir o governo de uma nação, variando, entre eles, apenas os meios usados para provocar o inimigo mais próximo ou dele se defender. As promessas de paz são quebradas, as tréguas interrompidas de surpresa, a guerra é a indicação mais evidente da existência de um povo. Nações existem porque lutam, constroem sua identidade pelas agressões, crianças são treinadas desde cedo para odiar os povos rivais, pegar em armas e criar uma imagem guerreira. Os motivos perdem-se nas brumas da História e são realçados por razões mais próximas, mais atuais, sejam de natureza econômica, política ou cultural.
Tais brumas podem ser desveladas nos livros sagrados dos muçulmanos, dos judeus e dos cristãos. Na Bíblia, o cenário comum a esses povos - irmãos  na origem, no monoteísmo e na geografia - serve de pano de fundo para a saga do Povo de Israel que veio, através dos séculos, enfrentando inimigos e esperando a divina proteção, a salvação e a vingança. Em vários trechos o texto sagrado fala de Deus defendendo seu povo, confundindo e derrotando seus inimigos, protegendo-o na luta e prometendo-lhe a salvação.
A imagem que o povo captava da palavra dos profetas era a da vinda de um Messias guerreiro, à frente de exército invencível, disposto e capaz de derrotar o inimigo e instaurar o Reino de Deus.
Surpreendentemente, o Salvador que Deus mandou para seu povo foi aquele Menino que louvamos no presépio e comemoramos nas festas do Natal.
Sua mensagem foi bem diferente do esperado. Em vez do deus vingativo, o Pai que nos abre o seu Reino. Em vez do ódio, o amor. Em vez da guerra, o perdão. Em vez da força, a fé. No lugar das armas, a Palavra. Mais do que a salvação como presente ou troféu, a indicação do caminho para o Reino de Deus. Um caminho que cada um constrói mas, no qual, não se está sozinho.
É verdade que Jesus não foi reconhecido logo. Ao contrário, foi preso, abandonado pelos amigos, açoitado, morto e sepultado. O que nos ensina a ter paciência. Nenhuma mudança significativa se faz do dia para a noite. Quem poderia imaginar que aquele homem sofrido e ensanguentado que morria no Calvário seria lembrado no mundo todo, mais de vinte séculos depois?
Os efeitos da mensagem cristã ainda não estão completos. Falta muito. Mas a humanidade caminha e, mesmo que seja difícil de acreditar, ela melhora. Podemos não perceber isto em sua totalidade, porque nosso tempo é limitado e Deus atua na eternidade, daí sua paciência infinita. Os modernos meios de comunicação, em oposição às condições do passado, expõem agora, em tempo real e cores vivas, as atrocidades e injustiças que desde sempre fizeram parte das relações humanas. Mas, se não perdermos a esperança, a maior visibilidade do mal pode atuar como fator de evolução da consciência e fortalecimento do desejo de conquistar o legado que o Cristo nos deixou.
O pensamento crítico e a indignação podem nos fortalecer, na certeza de que o Pai não nos abandona...

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Deu no rádio...

Eu  penso muito enquanto estou dirigindo. Os caminhos são sempre longos na vinda e na ida, para qualquer lugar...
As notícias do rádio fazem minha cabeça ferver, cheia de idéias, indignação ou entusiasmo, quando se trata respectivamente de política ou de esportes.
Hoje o Cielo ganhou a medalha de ouro nos 50 metros, nado livre, em piscina curta (25 metros) - indo e vindo, como um raio, em incríveis braçadas, sem respirar uma única vez!!!
Por outro lado, os deputados se conferem um aumento enorme nos subsídios, numa votação relâmpago, com a simples justificativa de equiparação com o mais alto posto do Judiciário. Não sou contra deputado, juiz, ministro, reitor - qualquer servidor público - ganhar bem, desfrutar de uma mega infraestrutura para desempenhar sua função. O trabalho deles é muito importante, para isto nós os elegemos e pagamos seus salários.
Mas fico pensando, cá com meus botões: se eles trabalhassem mesmo... Por que elegemos deputados para trabalhar só de terça a quinta-feira? Que povo é este que acha que trabalho de deputado é ficar "ouvindo as bases"? Na verdade, ouvir as bases, nos termos brasileiros, pode ser traduzido por incentivar o clientelismo. Os deputados fazem isto por que se não fizerem não são reeleitos. Nós, o povo brasileiro, não entendemos bem o papel altamente relevante dos nossos representantes. Nós, o povo brasileiro, em maioria, achamos que ser político é ser simpático, boa praça, benevolente, paternalmente generoso!
Atualmente, com todos os recursos tecnológicos, ouvir as bases, no seu sentido mais adequado e preciso, demandaria muito menos presença física. Não digo que o deputado precisa se isolar, perder contato com suas "bases". Claro que não. Mas, penso que seu principal papel é buscar a realização de um projeto coerente com o ideário de seu partido. Estudar as leis existentes, descobrir as falhas a corrigir e as necessidades reais a atender. Discutir mais com seus pares, juntar-se aos assessores para analisar dados, ouvir especialistas, promover debates pela internet. Fazer contatos diretos com a população de forma organizada e objetiva, na busca de sugestões e soluçãos. Atuar, assim, com maior profundidade na formulação de propostas e na fiscalização das ações de governo, seja com atitude de apoio ou de oposição.
Para fazer o que eles fazem agora, com a superficialidade que vemos todo dia, o salário está realmente muito alto. Nada mudou ou vai mudar tanto que justifique um aumento de mais de 10 vezes o índice da inflação.
Mas, o pior não é o valor aprovado. O Brasil pode aguentar - coitado, já aguenta tanta coisa! - o salário mínimo pode ser contingenciado, afinal, os pobres é que pagam as contas mesmo... O pior é a forma com que a decisão foi tomada, por votação simbólica, sem debate, sem o mínimo esforço para convencer os seus patrões (nós) da justeza da medida. Tomados de surpreza, só podemos desconfiar de que o assunto não foi colocado em debate porque eles mesmos não acreditavam em seus argumentos.
Por falar em argumento, é oportuno lembrar que o parlamentar tem um salário indireto polpudo porque os ganhos diretos eram insuficientes, segundo os beneficiados. E agora, com o aumento do salário direto, vão ser reduzidos os subsídios indiretos???
Eu ia falar da vaidade do Lula, mas acho que por hoje chega.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Terça-feira

Vou escrever mais frequentemente, só por escrever. Quem sabe algum dia sai uma coisa boa - boa de se ler. Hoje me esforço, estou com preguiça. Mas quero aprender, pegar prática. Lá vão as abobrinhas do dia.

Engraçada a hidroginástica. Sou aluna recente. Olho para as veteranas, tentando acertar os movimentos. Aí, eu morro de rir: um grupinho fica dando banho em espaguete, conversando e se divertindo a valer. Eu sou quadrada assumida, mas tenho a maior atração pelas folgadas...



E lá vou eu: um, dois, um, dois, chuta, empurra. Membros superiores, membros inferiores. Abdominal: pedala, pedala, senta, deita, senta, deita... Ei de conseguir. Na verdade, vencidos quase quatro meses de aula, com interrupções por causa de duas rinites e três viagens, estou me sentindo mais forte, mais ágil, com mais resistência. Enfim, estou gostando. Mas não consegui ainda entrar no papo, na tagarelice. 


Ao chegar em casa, meu coração bate forte: que beleza está meu jardim! Todo florido.

É tempo das flores cor de rosa e brancas. Um festival de manacás da serra e espirradeiras em botão acompanha a rampa de entrada e , na varanda, a lágrima de cristo se enrosca na grade de ferro. Que belas imagens!
Paro o carro e me emociono. Não resisto e busco a câmera. Vejam só!








As roseiras se estendem sobre a capelinha, espiando a cena de Natal. As imagens de cerâmica ficam ali o ano todo, mas nesta época, as rosas dão ao cenário um efeito especial!
Nem a festa de congraçamento da hidroginástica me deu tanta alegria nesta manhã!



sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Hino à Bandeira Nacional

Hoje, dia 19 de novembro,  é Dia da Bandeira Nacional.
vou transcrever aqui a letra do hino à bandeira, de autoria de Olavo Bilac.
Tenho saudade dos tempos de escola, a meninada toda no pátio, perfilada, cantando: 


Salve, lindo pendão da esperança,
Salve, símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança
A grandeza da Pátria nos traz.

Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!

Em teu seio formoso retratas
Este céu de puríssimo azul,
A verdura sem par destas matas,
E o esplendor do Cruzeiro do Sul.


Recebe o afeto que se encerra,
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!


Contemplando o teu vulto sagrado,
Compreendemos o nosso dever;
E o Brasil, por seus filhos amado,
Poderoso e feliz há de ser.


Recebe o afeto que se encerra,
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!

Sobre a imensa Nação Brasileira,
Nos momentos de festa ou de dor,
Paira sempre, sagrada bandeira,
Pavilhão da Justiça e do Amor!

Recebe o afeto que se encerra,
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!

Gostaram? Ouvi este hino no rádio hoje e adorei o arranjo, forte e vibrante. De quem será a autoria da música?

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Falando em avaliação do Ensino Médio

Estamos vivendo momentos difíceis de entender, com as complicações do ENEM deste ano. Não sei como o governo e os alunos vão sair dessa. Tanta trapalhada, incompetência, desencontros de opiniões e interpretações! No entanto, me parece que as grandes questões ainda nem foram abordadas.
Grande conquista do Brasil conseguir montar um sistema de avaliação do Ensino Médio. Se no Ensino Superior temos Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), com “o objetivo de aferir o rendimento dos alunos dos cursos de graduação em relação aos conteúdos programáticos, suas habilidades e competências”, é indispensável conhecer da mesma forma a situação dos alunos antes de entrarem nessa nova etapa.
Os critérios de avaliação do aluno nas escolas levam em consideração a sua própria proposta pedagógica, diferenciada e relativamente livre – desde que seguidos os padrões curriculares mínimos definidos nacionalmente. As notas no histórico escolar devem ser entendidas nesse contexto e, portanto, não têm como ser comparadas com as de outra escola. Para isto existe a avaliação externa, que pretende avaliar o resultado do ensino, usando o exame de desempenho dos alunos. (Uma conquista necessária é acrescentar a avaliação de outros fatores decisivos na qualidade do ensino, mas este não é meu assunto de hoje.) Quero refletir aqui sobre o uso que se está fazendo do ENEM, em seu estágio atual.
Para que serve a avaliação externa? Por que é tão importante?
A avaliação externa oferece a cada escola, pela aferição do rendimento de seus alunos, os parâmetros para conhecer como a instituição se situa no conjunto dos estabelecimentos similares, quanto ao ensino dos conteúdos curriculares e ao desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e competências próprias desse nível. Esse instrumento revela à escola seus pontos fortes e fracos, indicando os aspectos em que será preciso melhorar, ou aqueles que constituem o diferencial positivo a ser oferecido às famílias ao escolherem o colégio para seus filhos.
Os dados colhidos nessa avaliação são fundamentais também para subsidiar políticas públicas relacionadas à educação, possibilitando definir os investimentos em função das necessidades apontadas no estudo criterioso dos resultados das provas.
As famílias podem ter, no resultado publicado nacionalmente, as informações sobre a situação das escolas de sua região, identificando as que melhor atendem a suas expectativas de educação e, principalmente no que se refere à escola pública, aquelas em que é preciso mobilizar a comunidade para exigir melhor desempenho. A avaliação externa do ensino é, pois, uma fonte preciosa de informação para todos os interessados.
Tanto do ponto de vista das entidades mantenedoras – seja escola pública ou privada – quanto do ponto de vista do público e especialmente das famílias dos alunos, o ENEM, como instrumento de avaliação, precisa existir, ser prestigiado e defendido, o que não significa que já está perfeito. Deve ser sempre melhorado, corrigido, e aperfeiçoado, como tudo o que fazemos na vida. Do ponto de vista técnico já está no bom caminho, pela qualidade das questões apresentadas este ano – indicativas de uma proposta moderna e avançada de educação. Quanto à gestão...
Seu grande valor, porém, está ligado a um aspecto importante da concepção inicial desse projeto: não se trata de avaliação do aluno como indivíduo. Não se pode imaginar o sistema educacional empenhado numa empreitada de tal envergadura, apenas para comparar alunos entre si, fazendo um campeonato geral. Interessa sim, verificar como se saem as instituições de ensino na busca dos objetivos nacionais da educação básica, para encontrar meios de levá-las a melhorar, a sanar suas deficiências e encontrar seu caminho para o sucesso.
E aí está a fraqueza do ENEM em seu formato atual: travestido em competição para conquista de um lugar no Ensino Superior, ele se desvia de sua função mais nobre e cai nos mesmos erros já tão combatidos dos grandes vestibulares massificados: tremenda pressão sobre os alunos, gerando ansiedade e levando ao uso de recursos que acabam mascarando os resultados das provas para sua função principal.

Explico: em vez de mostrar nas provas o que construíram em sua trajetória pelos bancos escolares, os alunos que puderem vão se valer de cursinhos paralelos, nos moldes dos pré-vestibulares. Os que não dispuserem de recursos para uma despesa extra ficam em desvantagem. E, então, a prova, perde força para medir o rendimento do ensino, pois não é capaz de filtrar as distorções desse modelo perverso. Perde-se um valioso instrumento de avaliação e mantém-se a juventude refém dessa insana competição classificatória.
Por que será que os alunos têm que recorrer a cursinhos para vencer os desafios da Educação Básica? Ou a educação é básica e a escola comum tem que dar conta desse recado, ou estamos querendo mais do que o básico como critério de seleção. Mas o problema não é só esse. É que nossas escolas, não atingindo o nível desejável de desempenho, não têm meios de descobrir suas deficiências, já que os resultados das avaliações saem tão mascarados que não servem de base para coisa nenhuma.
O Brasil precisa encontrar a solução para oferecer oportunidade e estimular o ingresso ao Ensino Superior, tendo por fundamento uma Educação Básica de qualidade e considerando as aptidões, competências, expectativas e interesses dos candidatos.
O que não podemos aceitar, acima de tudo, é o país perder o tempo e a energia empenhada na concepção de uma avaliação importante do Ensino Médio, desperdiçando seu potencial de contribuição para ações objetivas para a melhoria desse mesmo nível de ensino. É um absurdo avaliar uma coisa pensando em outra.
Vejam que não tratei das questões pontuais que ocupam as manchetes, os debates e as manifestações causadas pelos desastrados eventos do último fim de semana. É que, para mim, o foco da discussão está equivocado. Precisamos encontrar outras formas de vestibular democrático sem enfraquecer o Ensino Médio.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Votar faz lembrar e pensar...

Domingo, 31 de outubro, eu votei, como sempre, na minha zona eleitoral que fica no Colégio Santa Dorotéia.

Entrando no terreno do colégio, fui tomada pelas recordações. As magníficas instalações atuais dessa instituição não se parecem nem de longe com o querido educandário das freiras de Nossa Senhora de Sion, onde passei os anos de minha adolescência. Nos anos de 1950, havia apenas o corpo central da edificação, pois o prédio ficou inacabado durante todo o tempo em que lá estudei. Se faltava beleza e a necessária infraestrutura física, nada deixava a desejar em organização, limpeza, acolhimento e excelência na prestação do serviço: uma educação primorosa. Mais tarde, a congregação de Santa Dorotéia adquiriu as instalações e, com o fechamento do Sion de Belo Horizonte, ali instalou o atual colégio. Mas não é sobre isto que vou falar aqui.

Na parte mais baixa e úmida do terreno do colégio, cortada por um fio d´água, havia uma horta e uma plantação de morangos. Mère Rosélia, mesmo sem nos falar de sua origem – que, assim como seu verdadeiro nome de família, os votos religiosos proibiam de alardear – exercia com gosto o trato da plantação, deixando escapar, muito discretamente, o quanto os morangos fizeram parte de sua vida em casa, na fazenda de seus pais, no sul de Minas.

Mas não eram apenas morangos o que ali se cultivava. Boas maneiras, bons sentimentos e solidariedade eram parte do dia a dia. Não apenas entre nós, mas abrangendo as cercanias. Em pouco tempo, à medida que crescia a favela para além de onde agora é a rua Venezuela, começou a preocupação em proporcionar escolaridade às crianças que ali viviam.

Foi então construído, na área da propriedade, um pequeno prédio com duas salas de aula e entrada pela rua Chicago, onde passou a funcionar uma escolinha aos cuidados das freiras, com professoras enviadas pela Prefeitura. Em pouco tempo, a escolinha mostrou-se insuficiente, pois a população aumentava muito, subindo a montanha para o lado do oeste e formando a famosa favela do Morro do Papagaio.

Em 1953, criou-se então o Grupo Escolar Municipal Benjamin Jacob, ocupando uma área do terreno, onde viria a ser a confluência das ruas Venezuela e Assunção. Com salas amplas dispostas em forma de U, cozinha bem equipada, um galpão refeitório que também servia para as festas e um pátio para o recreio, dava frente para a favela, a rua ainda sem urbanização. Nós entrávamos pelo colégio, por um caminho rústico orlado por um bambuzal que contornava a horta e a plantação de morangos.

Eu estava no primeiro ano do Curso de Formação de Professoras e nós ajudamos a decorar e preparar o estabelecimento para sua inauguração. Com certeza outras trabalharam muito, mas só sei de mim e meu grupinho. Sob o comando de Mère Ana Lúcia, dedicamos o máximo capricho na arrumação das salas e da biblioteca, que ficou um primor, com figuras da literatura infantil recortadas em compensado e pintadas por mim, cartazes com desenhos de Zezé Aun e letreiros de Vera Nicolau da Rocha, uma artista do normógrafo (espero que vocês saibam o que é isto). Foi uma combinação promissora, pois eu me tornei professora, Vera bibliotecária e Zezé é artista plástica.

Essa escola municipal, uma das primeiras da capital que até então só contava com escolas públicas estaduais, foi o nosso campo de prática de ensino e onde levamos o choque da convivência direta com pessoas cujo modo de vida era tão diferente do nosso. Lições contundentes sobre pobreza, desnutrição, verminose, abandono, trabalho pesado, lares desestruturados, diferentes formas de organização familiar, moradias improvisadas e precárias. Foi lá que vislumbrei, aos poucos, com inocente perplexidade, a dimensão da importância da educação como recurso para a libertação do ser humano, para a superação das dificuldades da vida e para a conquista da inclusão social. Saí do colégio com um ideal que só poderia ser realizado como professora – e mais: professora de escolas públicas de periferia. Foi o que fiz durante os primeiros quinze anos e que orientou todas as etapas de minha vida profissional.

Na verdade, a recordação dessa parte da minha vida me leva a compreender as escolhas de uma outra menina que, mais de dez anos depois de mim – segundo depoimentos de suas colegas aos jornais - viveu sua adolescência nesse mesmo ambiente, estudando no mesmo colégio, participando das obras sociais que, em sua época, se ampliaram na região. Com a mesma motivação, os mesmos estímulos, fizemos nossas escolhas. Minhas referências e minhas leituras – de livros, de família e do mundo - provavelmente eram diferentes das dela, por isto escolhemos caminhos divergentes, ela na militância política, eu no magistério. E ela, mesmo sem meu voto, tornou-se agora, Presidente do Brasil.

domingo, 10 de outubro de 2010

Falando de eleições

Não vou usar meu blog para fazer campanha, mesmo porque tenho tão poucos seguidores que a campanha não teria o menor efeito eleitoral. Mas todo dia eu leio sobre o assunto na internet e nos jornais. Não resisto a marcar presença com um comentário.

Vamos ao que escreveu Baptista Chagas de Almeida, hoje, na sua coluna EM DIA COM A POLÍTICA, no jornal Estado de Minas:


Petistas mineiros ...com a garantia do anonimato afirmam que Aécio Neves, se fosse o candidato tucano, estaria e venceria no segundo turno de mão amarrada, porque ele tem o que falta tanto a Dilma Rousseff quanto a José Serra: emociona, é simpático e é moderno”. Não me surpreende que reconheçam isto – uma facção mais pragmática do PT, na eleição municipal de 2008, em BH, uniu-se a Aécio para ganhar a eleição, participando da chapa vitoriosa encabeçada por Márcio Lacerda, PSB, indicado e apoiado pelo então governador.

No entanto, o carisma de Aécio não funcionou a favor do tucano neste primeiro turno - talvez porque grande parte dos que votaram em Aécio para Senador tenha se recusado a votar em Serra por ressentimento contra o modo como se deu a escolha do candidato do PSDB à presidência do Brasil. O processo de decisão do partido  pareceu arrogante e pouco simpático, ferindo os brios dos mineiros que tomaram as dores do seu governador, detentor de incontestável popularidade. Foi uma disputa em que a decepção de ter perdido o posto para o correligionário paulista, julgando ter em Minas o candidato ideal, contaminou a decisão do eleitorado das bandas de cá. Claro que não se pode também ignorar a grande surpresa que foi a alternativa apresentada pela candidata Marina Silva e sua nova forma de fazer campanha eleitoral. Por isto, se quiser vencer em Minas no segundo turno, Serra terá que contar com Aécio suando a camisa para reconquistar os votos perdidos no primeiro turno. Mas nem isto basta.

Não menosprezando o valor do carisma na política, lamento no entanto que o processo não seja mais focado na análise da competência e qualidades dos candidatos e em suas ideias. Além disso, quando as propostas sérias ficam ofuscadas pelas jogadas de publicidade ou se reduzem a apelos populistas, o jogo eleitoral não contribui para a formação política do povo nem para a consolidação da democracia.

Outra matéria que me chamou a atenção no Estado de Minas de hoje, foi a reportagem sobre as cidades mineiras onde os principais candidatos foram proporcionalmente mais votados: Dilma teve 85% dos votos em Olhos d´ Água, norte de Minas – município muito pobre, onde grande parte da população depende do programa Bolsa Família ou do Banco de Alimentos, que beneficia pequenos agricultores locais com a compra subsidiada de sua produção rural. Segundo o prefeito (do PSB), a população teme que, se Dilma não for eleita, os benefícios sejam cortados, conforme ameaças de “petistas locais”. Uma eleitora entrevistada alega que votou na Dilma porque ela é a “candidata dos pobres”.

A cidade que deu mais votos a Serra, mais de 70%, foi Jacuí, no sul de Minas, onde não falta emprego e a população beneficiada pelo bolsa família não chega nem a preencher as vagas destinadas ao município pelo programa federal. Jacuí fica perto da divisa com São Paulo, sofrendo forte influência do estado vizinho. Provavelmente, Serra lá é um velho conhecido.

Visto assim, superficialmente, o cenário focalizado na reportagem, parece dar razão à propaganda que opõe pobres e ricos nesta etapa do desenvolvimento da democracia no Brasil. A desinformação e a má fé com certeza podem fazer essa falácia "pegar", enfraquecendo a denúncia e adiando o enfrentamento das verdadeiras causas da pobreza, das doenças e da violência, os grandes males que a população conhece, sofre e dos quais se quer livrar. O fantasma da Venezuela, naufragando nessa luta inglória, artificialmente alimentada por motivos egoístas de um político egocêntrico, me faz perder o sono... Se o carisma de um presidente pode servir para unir a nação, é uma pena que seja empregado para implantar a discórdia, demonizar as “elites”, maldizer a imprensa e limitar a liberdade de opinião.

O carisma é bom para conquistar votos, mas não faz um grande presidente. Se não conseguimos um com carisma, que pelo menos possamos escolher um cuja história nos dê garantia de trabalho sério, com rumo definido e compromisso com a dignidade e a qualidade de vida de todos os brasileiros.  

Por isto, pelo amor de Deus, candidato Serra, não entre no jogo das meias verdades, não faça promessas vazias, pense grande, ajude o povo brasileiro a pensar grande, acredite na inteligência de nossa gente!

Vamos a uma campanha que mostre a real diferença das propostas. Vamos chamar o cidadão brasileiro para uma empreitada que desperte o patriotismo verdadeiro, que nos faça torcer pelo Brasil em todos os momentos de nossa vida, não apenas quando nossos representantes são jogadores de bola, no campo ou na quadra. Vamos exigir dos políticos o que exigimos de nossos atletas: muito trabalho, eficiência nos fundamentos, eficácia dos resultados, atitude ética e garra na luta. Simpatia, generosidade e bons modos também não fazem mal a ninguém.


Ledinha, 10 de outubro de 2010.