segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Diário de Viagem, P.06: KOTOR e DUBROVNIK

Se você está entrando agora no meu diário, sugiro que comece da PRIMEIRA PÁGINA. Olhe ali, na coluna da direita, o índice do arquivo do blog e veja as postagens de outubro. Fico feliz de saber que você está aqui!

2ª-feira, 26.09.2011
KOTOR, Montenegro

Ao alvorecer, quem estava acordado, vendo o navio chegar a Kotor, diz ter visto uma das paisagens mais deslumbrantes da viagem. Eu, inexplicavelmente, dormia! Quando acordei, o navio já estava bem atracado, às margens de uma das baías mais lindas do mundo. Hoje, o porto está do outro lado da embarcação. Não o vejo de minha varanda, mas, em compensação, vejo o mar e parte da paisagem local.

Durante a noite saímos do mar Jônico e estamos no Adriático. O fuso horário é 5 horas adiante do Brasil. O país em que chegamos é Montenegro que se limita com a Albânia, a Bósnia Herzegovina, a Sérvia, a Croácia e é banhado em toda sua costa pelo Mar Adriático. Do outro lado do mar, fica a Itália.
Montenegro, com população de 800 mil habitantes aproximadamente, tem uma história longa e interessante, que começa a ser registrada a partir do Império Romano e passa pelo domínio romano, eslavo, sérvio, veneziano e otomano, com períodos intercalados de nação independente. No século XIX, vence a guerra contra os otomanos, com ajuda da Rússia e Sérvia. Após a Primeira Guerra Mundial, Montenegro torna-se parte da Iugoslávia e depois da Segunda Guerra Mundial, sob o comando do lider comunista Tito, cresce economicamente e se torna uma das mais importantes repúblicas socialistas que compunham a ex-Iugoslávia. 
Sobre o pórtico, uma citação de Tito, de 1944,
cuja tradução não consegui memorizar.

O incrível mosaico étnico dos Bálcãs foi sedimentado pela ação de Tito, que escolheu uma "via própria para o socialismo", independente das regras impostas pelos soviéticos no leste europeu. Ele ousara enfrentar os dois maiores tiranos da Europa do século XX, primeiro  Hitler e depois Stalin, mantendo a Iugoslávia pacificada e coesa. Juntamente com Nasser do Egito e Nehru da Índia, lançou as bases da organização dos não-alinhados em 1955, projetando o seu nome internacionalmente. Em 1992, um conflito com os croatas e bósnios é o início do percurso para a independência de Montenegro, conseguida em 2006. (Viva o Google!)
Como em outros países da região, o crescimento do turismo tornou-se uma fonte econômica importante para o país onde o euro circula livremente, apesar de não fazer parte da União Europeia. O nome do país refere-se às elevadíssimas montanhas de seu território central, cobertas por uma densa vegetação de pinheiros que no conjunto forma uma massa escura, quase negra.
À noite, no navio, captamos esta imagem
das muralhas iluminadas
Kotor é uma cidade turística, com cerca de 25 mil habitantes e cuja zona central é reconhecida como sendo Património da Humanidade pela UNESCO. Essa parte mais antiga é uma cidade medieval cercada por muralhas que a contornam ao nível do mar e avançam morro acima, fechando uma área de proteção em terreno quase vertical. Diz nosso guia turístico, que as muralhas serviam para defender a cidade dos invasores por terra - tais como os vizinhos “mui amigos"  sérvios - porque, os inimigos que viessem pelo mar seriam facilmente identificados a distância e logo vencidos pela grande habilidade local com as artes da guerra por mar.
Entra-se nessa cidade-fortaleza por um único pórtico, sobre o qual foi gravada uma citação de Tito, datada de 1944.

Pórtico de entrada da cidade velha de Kotor

Lá dentro, percorremos ruelas estreitas e tortuosas, cheias de lojas com mercadoria de médio a alto luxo, ligando pracinhas charmosas. Sobre o calçamento de mármore, como na Grécia, lá vamos nós, com o melhor guia que já tivemos até hoje.
Fones no ouvido, radinho ao pescoço
 Jovem e magro, sua camisa de cor alaranjada se destaca no meio dos transeuntes. Apresenta-se como guia e estudante de pós-graduação não sei em quê, e demonstra muito conhecimento sobre o que fala, amor por sua terra e disposição para responder qualquer pergunta, sempre num inglês fluente muito bom, no que consegui captar. Outro ponto positivo da excursão em Kotor é a utilização dos fones de ouvido, que nos permite escutar bem as explicações, sem precisar ficar nos amontoando em volta do guia. 
As pracinhas têm muitos restaurantes, sorveterias e bares ao ar livre, com decoração de bom gosto, tudo limpo e muito lindo. Diz o guia que a população é pacífica e harmoniosa. Aí convivem, sem conflitos, católicos, ortodoxos e muçulmanos.


As igrejas são muito bonitas e numerosas, proporcionalmente à população. 
O Museu Marítimo, antiga residência de nobres que doaram o prédio, mostra aspectos da cultura local – vestimentas, móveis, louças e prataria, obras de arte - e do poderio militar – armas, barcos, artigos náuticos.
A área do porto, fora da muralha é moderna e bem ajardinada. Um mercado ao ar livre vende produtos da terra e artesanato. Ao contrário das lojas internas, os preços aí são baixos, mas a qualidade deixa a desejar, exceto quanto aos paninhos bordados, que são lindos. Queijos apetitosos são oferecidos por mãos de dedos sujos, para provar. Agradecemos. Os vendedores só falam a língua materna, indecifrável para nós. Mas sabem os números em inglês, para dar o preço em euros.
O tema de nosso passeio focalizou o local como patrimônio cultural da humanidade, onde a arquitetura lembra o domínio da República de Veneza, as fortificações muito bem preservadas remontam aos mais remotos tempos da Idade Média e  a religiosidade se manifesta em importantes edificações como a Catedral de São Triphon (qual seu nome em Português?) construída em 1166. Mas Kotor tem muito mais, em termos de paisagens e possibilidades de esporte e lazer nas montanhas e em sua baía espetacular. Fica para a próxima!!!

Ao voltar para o navio (olha ele ali!), o grupo da excursão já disperso, passeamos um pouco pelos jardins e provamos da vida boa de quem anda por ali: o trânsito é civilizado e os carros esperam os pedestres atravessarem a rua.
O porto de Kotor visto do alto do deck11 do Seven Seas Voyager.


3ª Feira – 27.09.2011
DUBROVNIK, Croácia
Hoje eu peguei a alvorada de jeito! Não gosto de perder o espetáculo. Fico na varanda, admirada. Mas há um café completo a minha espera e, depois, a exploração de mais uma localidade desconhecida. Um mundo completamente novo para mim: a Croácia.
O navio está atracado no porto, aonde os ônibus vêm nos buscar. Só de olhar fico com a maior curiosidade. “Aqueles que procuram o paraíso na Terra devem vir a Dubrovnik”, escreveu George Bernard Shaw encantado com a beleza dos 1940 metros de muralha – hoje patrimônio protegido pela UNESCO – que circundam esta cidade que é apelidada de Pérola do Adriático. Vou conferir toda animada.
De dentro do ônibus, já posso ver que é mesmo um lugar interessante e belo, mas - que pena! - com a guia mais incompetente de todos os que nos acompanharam nas excursões. Parece que não domina bem o idioma inglês, fala baixo e mostra-se insegura para responder perguntas.
Se eu entendesse melhor a língua e pudesse ouvir as explicações com clareza, poderia talvez compreender os fatos históricos dessa região tão complexa, na versão da Croácia. Porque é preciso levar em conta quanta incompreensão e ódio se sedimentaram  na história destes povos que tentam manter sua identidade numa convivência conturbada por preconceitos, disputa de poder, alianças políticas, divergências ideológicas e desequilíbrio econômico, desde tempos ignorados pela História que aprendemos na escola. O que fica claro apenas é o que eu já sabia: no capítulo mais recente de sua história, a Croácia que fazia parte da República Federal Socialista da Iugoslávia, declarou sua independência em 1991.
Dubrovnik é uma cidade croata na costa do Mar Adriático, ao sul de uma região chamada Dalmácia. Desde 1979 foi declarada patrimônio da humanidade pela UNESCO. Sua prosperidade foi historicamente baseada no comércio marítimo, do qual foi uma das maiores potências nos séculos XV e XVI, rivalizando com Veneza, a mais poderosa da época.
Logo de início, o trajeto do ônibus proporciona uma visão grandiosa das muralhas, passando bem junto delas.












Em seguida, o roteiro é impressionante: a pé, percorremos as ruas onde monumentos e edificações de várias épocas mostram não só a variedade de influências culturais, como o poder de recuperação - com o apoio da UNESCO - de obras destruídas em guerras e catástrofes naturais. A proposta de nossa visita é andar pelos meandros de uma enorme fortaleza fincada nos rochedos à beira-mar, tudo em grandes dimensões, distâncias e escadarias que só pude enfrentar com os olhos.
Por isto Flora e eu nos desligamos do grupo e demos uma volta pelo comércio e pracinhas, debruçamo-nos em amuradas sobre o mar e aproveitamos ao máximo a paisagem deslumbrante.















Não sei se por causa do acúmulo de turistas, ou por ter dificuldade de se comunicar em inglês, o povo me pareceu mais impaciente e brusco do que nos outros lugares. Não tivemos muita sorte em lojas e ao pedir informações. Em compensação, uma vendedora de rua, moça bonita, nos atendeu risonha e até nos deu, a cada uma, de brinde, um sachê perfumado - talvez em retribuição à sinceridade de nosso encantamento diante de seu sorriso, suas bonecas e bordados tão lindos e delicados.















Ao terminar o passeio, encontramos os companheiros e juntamo-nos, os quatro, em torno de uma mesa de bar para uma cervejinha, na sombra, servidos por um garçom croata admirador do futebol brasileiro.

No retorno ao navio, uma passageira sentiu-se mal e o Ary demonstrou iniciativa e força física, pois a levou nos braços do ônibus até o atendimento médico no navio. Ele é assim: descobre gente que está precisando de ajuda em todo lugar. Mas desta vez, houve falha na logística da excursão, pois não se justifica que o socorro tenha dependido apenas da solidariedade do Ary. Algo de errado aconteceu aí - e o erro com certeza não foi da moça que adoeceu. O certo, a meu ver, teria sido o motorista ou a guia ter comunicado o ocorrido à assistência médica do navio para que a paciente fosse esperada na chegada do ônibus, com equipamento de emergência. Afinal, para que servem os celulares numa hora destas?




quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Diário de viagem, p.05: ZAKINTHOS e CORFU

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Sábado, 24.09.2011
ZAKINTHOS.


São sete e meia e a luz da manhã começa a atravessar a cortina. Eu não uso o black-out, porque gosto de ver o sol nascer. Mas vejam a compensação de acordar cedo - todo dia é assim e não me canso:



Toda cidade aqui tem mais de um nome. O outro nome de Zakynthos, é Zante. Fica na ilha de mesmo nome, a terceira em extensão no Mar Jônico. 
Durante a noite saímos da área do mar Egeu, a leste da Grécia e entramos em águas do Jônico, no lado oeste.
Mar Jônico é um braço do Mediterrâneo, ao sul do Mar Adriático. É por aí que vamos contornando a Grécia. A ilha que visitamos hoje é Zakynthos e fica no mar Jônico, bem perto da península grega do Peloponeso, nome famoso na História pois aí se localizava Esparta, a potência da Grécia Antiga, rival de Atenas. Essas cidades-estado enfrentaram-se na Guerra do Peloponeso - nome que me leva de volta às aulas de Història Geral de Mère Malena, na segunda série ginasial do Colégio Sion. Por isto, quando a guia diz "Peloponeso", eu aplico as orelhas para captar sua fala.


Charmosa ruina de antigo monastério.

A inglesinha que nos guia fala muito depressa, fica difícil entender. Mas alguma coisa se pesca, claro, com alguma boa vontade e ajuda da Flora. Por exemplo, captei a lenda de um monge solitário, homem muito rico que deu toda a fortuna aos pobres, tipo São Francisco, e recolheu-se a um monastério. O que mais se vê na Grécia são monastérios e capelinhas, prova da religiosidade das gentes que povoaram esta terra. O santo padroeiro de Zakynthos é São Dionísio, que foi abade, até sua morte em 1624,  no Monastério de Anafonítria, dedicado à Virgem Maria, o mais antigo da ilha. A esse santo, que tem o mesmo nome mas não é o mesmo Saint Denis, padroeiro de Paris, são atrubuídos muitos milagres. O que não entendi, por limitação linguística, é se o santo é o mesmo monge da lenda. 
 
"Blue Caves"-  (foto do Google)
Zakynthos é um dos maiores centros turísticos da Grécia, procurado por celebridades e milionários do Primeiro Mundo, devido à beleza de suas praias de areias brancas e águas cristalinas e aos hotéis de alto luxo. Uma atração peculiar são as "Cavernas Azuis", escavadas pela água do mar em grandes penhascos, onde o fundo de seixos calcáreos muito brancos destaca a cor turquesa das águas e reflete a luz do sol com efeitos espetaculares. Mas não há acesso por terra,  motivo pelo qual não pudemos ir lá. A única forma de se ver ou chegar a essas praias é por mar e em botes pequenos. Existem programas de excursão de um dia, em embarcações locais, com paradas para contemplação e banhos de mar.

Logo ao chegar à cidade, perto do porto, paramos na praça principal,onde há prédios de construção recente, contrastando com uma igreja antiga, a única edificação que sobreviveu a um terrível e famoso terremoto com incêndio, em agosto de 1953, e está restaurada.
As capelinhas que salpicam vales e montanhas são particulares e foram construídas em agradecimento a Deus, pelas famílias dos sobreviventes.
A excursão foi das mais confortáveis que tivemos, porque o trajeto foi todo feito de ônibus, com paradas nos pontos mais interessantes.  Vimos oliveiras por todo lado e a expressão mais repetida pela guia era "olive oil", referindo-se às árvores e à indústria caseira de azeite, sabonetes e outros produtos feitos de óleo de oliva.

Visitamos uma vila na montanha, onde havia barracas para comércio de artesanato local. Os bordados são muito bonitos, mas não comprei porque só aceitam dinheiro vivo e eu estava com pouco. (Uma forma frustrante de fazer economia).




Intervalo para descanso e café.
O ônibus nos levou por muitas montanhas com vistas maravilhosas, por estradas muito estreitas e tortuosas. Às vezes é difícil fazer curvas, outras vezes não passam dois veículos, um tem que recuar.
No centro da cidade, encontro um caixa eletrônico e pego novos euros. Mas é sábado e as lojas estão fechadas. Comércio interessante, com muitas casas de jóias e moda - sou obrigada a continuar, a contragosto, com minha política de contenção de gastos.
Ao vivo elas pareciam maiores!
Aberta, só uma lojinha de souvenirs, onde pude comprar umas lembranças, inclusive um lindo sino, miniatura de porcelana pintada. Gostei da gentileza com que fomos tratados  nessa única loja, mas lamentei que um país em situação econômica tão crítica não esteja empenhado no esforço de aproveitar a disposição dos visitantes para umas comprinhas na tarde de sábado. 
A última imagem da cidade que guardei foi a de um mercadinho com legumes expostos na calçada - cada cebola enorme!


Domingo, 25.09.2011
CORFU


Corfu, vista de minha cabine.
Chegamos a Corfu,  navio atracado no porto, mas eu não fui a terra. Esta é a principal cidade da ilha de mesmo nome, onde fica a Universidade Jônica. Corfu ou Córcira é uma ilha grega do mar Jônico situada na costa da Albânia, de que é separada por estreitos. Seu nome em grego é Kerkyra.
Flora e eu não nos inscrevemos na excursão de hoje, mas Márcia e Ary aproveitaram tudo, e confirmam a beleza do local e de sua história.

Eles também amam o nascer do sol...
As lendas de Corfu remontam aos tempos da mitologia grega, referindo-se a símbolos ligados à água, como Poseidon, o deus do mar e Asopos, deus do rio. Consta que Poseidon apaixonou-se por uma filha de Asopos e a raptou, levando-a para uma ilha deserta à qual deu o nome da amada, Kerkyra, o nome grego de Corfu.
Elizabeth de Austria
Em 1869, a imperatriz Elisabeth da Áustria – (Sissi, a Imperatriz - lembrar do filme com Romy Schneider) - fez ali uma mansão, o Achileion Palace, com vista para o Mar Jônico e belos jardins enfeitados de estatuas clássicas da história e mitologia gregas, principalmente de Aquiles, o heroi grego que a imperatriz admirava, e no qual se inspirou para dar nome ao palácio.

Aquiles

Achileion Palace
     
Vista da área da piscina, com mesas do Pool Grill.
Tendo me desencontrado da amiga Flora, no programa matinal, resolvi passar o dia explorando o navio. Curti a piscina, almocei uma salada no Pool Grill e depois, andei por todos os decks, para conhecer tudo: lounges, bares, biblioteca, salas de jogos, salas de conversação, galeria de artes, vitrines da butique.
Experimentei um pouquinho de tudo. No saguão, fica um grande quebra-cabeça com pessoas em volta, tentando montar as peças, jogo coletivo de participação espontânea. Alguns chegam, outros desistem, a paisagem marinha está longe de se completar. Observando tudo com interesse, distraio-me e passo em vários lugares sem fotografar. Agora lamento, mas está feito.
Visão do porto de Corfu, a partir do terraço do La Veranda.
Esta é a última parada em território grego. Vamos para o Mar Adriático, pela costa da Albânia. A próxima parada é em Montenegro.








terça-feira, 25 de outubro de 2011

Diário de Viagem, p.04: SANTORINI e MONEMVASIA

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Quinta-feira, 22.09.2011
SANTORINI, Grécia
O dia amanhece chuvoso, o sol nasce entre nuvens, uma bola alaranjada sobre as montanhas que se aproximam, enquanto o navio chega ao porto de mansinho.
Café bem cedo - quem manda dormir tarde? Encontro às oito no Constellation Theater, para organização dos grupos que vão sair em excursão.

Hoje estamos no lugar mais famoso da região: porto de Santorini.
Santorini é um arquipélago de ilhas vulcânicas, onde não há rios e a água é escassa. No entanto, há uma economia produtiva além do turismo, sua principal fonte de renda. Ganharam minha admiração os gregos, por serem capazes de vencer condições tão desfavoráveis. Não é à toa que tiveram papel tão influente na formação da civilização ocidental.

Já dentro do tender a caminho da terra, o céu se abre, todo azul, refletindo-se na água. (foto)
A espuma branca no rasto da embarcação contrasta com a cor brilhante da água do mar. Eta prazer mais gostoso! Só sendo mineiro para entender esse êxtase visual!

Em terra, também tudo é branquinho e azul - ruelas, subidas e descidas, pequenas lojas ao longo de todo o percurso, com mil tentações. A configuração da cidade é bem característica, igual àquelas que a gente vê no cinema e na tevê. Adorável!


Não posso negar que o passeio foi muito cansativo - pelo trajeto e opções do lugar, que bom seria se durasse mais, com possibilidade de andar com calma e parar para descanso, sorvete, etc. 
O ônibus, na ida, leva-nos até metade da subida, nos abandona à própria sorte - sorte divina, diga-se, pois vamos curtindo a paisagem e o comércio, descobrindo novidades, fazendo comprinhas - e volta para nos esperar lá embaixo. A partir de certo ponto, porém, tivemos que acelerar o passo, ladeira acima, para retornar a tempo de pegar a condução de volta ao navio. Nesse trecho minha curiosidade foi despertada por muita coisa que gostaria de apreciar com calma e até comprar, se tivesse tempo!
Lá em cima - difícil de imaginar a altura que atingimos - estava a estação do teleférico, onde tomamos um dos bondinhos para 6 passageiros. Adorei, não só o espetáculo que se vê lá do alto, mas a sensação de vencer meu medo de altura.

No último momento, enquanto os companheiros se dirigiam para o ônibus, parei em mais uma das inúmeras lojas de badulaques, para comprar pulseirinhas de vidro, expostas do lado de fora. Escolhi algumas rapidamente e procurei um vendedor. Entrando na loja, não vi ninguém. Quando já desistia, apareceu uma senhora que estivera escondida atrás de uma estante de mercadorias. Ela me atendeu gentilmente e, quando saí, não pude deixar de pensar que eu poderia ter levado o que quisesse, sem que ela notasse... Com tanto turista, é muita confiança deixar tudo assim tão exposto!



Olha nós em Santorini: Ary, Márcia, Flora e eu. Vejam que céu azul!




Sexta-feira, 23.09.2011
MONEMVASIA, Grécia

Completamos hoje uma semana de viagem - e estou quase convencida de que o Inglês é a única forma de comunicação humana!
Foi o dia de Monemvasia, uma pequena península muito sem graça, com um morro de grande beleza sobre as águas. Tem uma parte antiga com valor histórico pouco explorado. Parece que o próprio pessoal de lá não acredita no potencial turístico da terra – os transeuntes, comerciantes e policiais que abordamos nem sabem dar informações estimulantes. Comércio fraco. Parece uma daquelas praias escondidas no litoral capixaba, como as conheci há meio século.

Para nos recuperarmos da canseira de ontem, Flora e eu decidimos não enfrentar a excursão de hoje que anunciava terrenos irregulares e grandes caminhadas.  Fomos, porém passear em terra. Flora precisava de um medicamento e, assim, lá fomos nós andando sem rumo, à procura de uma farmácia. Encontramos uma bem razoável. Depois percorremos ruas e lojas, mas nada que valesse um segundo olhar. Comércio de baixa qualidade, sabem como é? Por incrível que pareça, de onde menos se esperava, foi daí que veio a surpresa: numa loja de miudezas e armarinho, vimos os artigos mais bonitos que encontramos à venda na Grécia: jogos de chá de porcelana finíssima, com desenho elegante e estampa pintada a mão da melhor supimpitude, como diz meu cronista predileto do Estado de Minas. Claro que não era compra a se fazer assim, no meio de uma viagem, embrulho pesado, artigo supérfluo em casa. Mas que nos apaixonamos por essas xícaras, ah, isto é verdade.



A história deste lugar é muito interessante, pois sofreu várias invasões árabes e normandas no início do primeiro milênio da era cristã, tendo se tornado parte do Império Bizantino e sede do governo imperial a partir de 1460. Passou por diversas guerras e viveu sob a proteção ora do Papa, ora da República de Veneza, grande potência na Idade Média, e também do Império Otomano. É sabido – as agências de turismo o divulgam – que recentemente, o local tem crescido em importância econômica devido ao incremento do turismo na região. Os edifícios medievais foram restaurados e muitos deles convertidos em hotéis.


Para aproveitar bem o lugar, Ary e Marcia pegaram uma moto poderosa e exploraram os arredores. O que não falta por aqui são paisagens bonitas, para quem vai ao alto das montanhas e olha em direção ao mar.
Não fomos às praias, mas consta que são bem bonitas. Ao retornar ao navio, encontramos um grupo de artistas que tinha ido ao banho de mar. São bailarinas, dançarinos, acrobatas, cantores e cantoras que fazem os shows toda noite no Theater Constellation.
Agora vou tentar me entender com a internet, aproveitando os préstimos da filipina que nos atende no CLUB.COM. Já gastei quase todos os minutos pre-pagos e ainda não consigo acessar sozinha nem a navegação nem o email. Mas o iPad está cumprindo bem suas funções de ler e escrever...

Assim, chegamos ao fim de nossa primeira semana de viagem.










 

domingo, 23 de outubro de 2011

Diário de Viagem, P.03: MYKONOS e KUSADASI (Efeso)

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3ª feira, dia 20.09.2011
MYKONOS
Por causa do atraso na saída, passamos ao largo de Delos, onde deveríamos ter chegado de manhã cedinho. Mas à tarde já pudemos visitar Mykonos conforme programado, com seu comércio colorido nas ruelas brancas. Em cada esquina, um lugar mais lindo para se visitar, mar azul, céu claro e sol escaldante, que nada é perfeito demais. Um calor! Casas branquinhas, muitas capelinhas, calçamento de mármore, ladeiras e ruelas estreitas. O mármore não é sofisticação, é a pedra natural deste terreno. Paisagens inacreditáveis. Cada buganvilha mais colorida, todos os tons de vermelho e rosa! Tudo muito lindo: ao longe, mas bem visível, um casal nu na praia;  uma capela com um sino a disposição de quem o queira tocar e muitas capelinhas espalhadas pelas colinas que cercam a cidade.




Depois, um monastério, exemplo da riqueza da arte bizantina. Uma igreja simples por fora e suntuosa por dentro. As paredes externas são de mármore bem claro, com inscrições e ornatos em relevo, tudo bem bonito e suave. Por dentro, muito ouro e cristais, traços que serviram de inspiração para a arte sacra ocidental que resultou no rococó, diz o guia - se é que entendi bem o seu inglês...
O monge zelador recomenda: quem entra na igreja, deve sair de ré, para não dar as costas ao altar. (Vejam o monge sentado ao fundo da foto)
Para completar, petiscos com licor de anis, num bar com mesinhas na varanda, na praça ao lado do monastério.
Mykonos é deliciosa. Na mitologia grega, aí foi o teatro da batalha de Hercules contra os Gigantes. Seu nome é uma homenagem a Mykon, filho do rei de Delos, neto do deus Apolo. Seus primeiros habitantes foram fenícios, egípcios, cretenses e, por fim jônicos. Sua história, semelhante à das outras ilhas gregas, depois do apogeu da Grécia Antiga, passou por diversas dominações, especialmente de Veneza e Turquia. Em 1822 os gregos expulsaram os turcos, mas só conquistaram sua independência em 1830. No século XX, entre a primeira e a segunda guerra mundial começou o fluxo de visitantes às ruínas arqueológicas de Delos e Mykonos, transformando essas ilhas no importante destino turístico de hoje.


4ª feira, dia 21.09.2011
KUSADASI - Éfeso/ Turquia.

Estamos no Mar Egeu que faz parte da bacia do mar Mediterrâneo, situado entre a Europa e a Ásia. Estende-se da Grécia, a oeste, até a Turquia, a leste. Ao norte, possui uma ligação com o mar de Mármara e o mar Negro através do Dardanelos e do Bósforo. O mar era tradicionalmente conhecido como o Arquipélago, ou "mar principal"  devido a sua importância para os gregos. Por metonímia, o termo também se aplicava ao conjunto das ilhas do Egeu e, posteriormente, veio a designar qualquer conjunto de ilhas. (Wikipédia)

Atracado o Seven Seas Voyager ao Porto de Kusadasi, Turquia, visitamos Ephesus, localidade de onde o apóstolo São Paulo foi expulso porque chegou à cidade com sua mensagem que reprovava o culto aos deuses - e o povo de lá ganhava a vida fabricando imagens da deusa Artemísia em mármore. Foi para esse povo que Paulo escreveu as "epistolas aos efésios", no Novo Testamento. João, o evangelista, instalou-se nessa cidade turca, para onde levou Maria, pois tinha sido encarregado por Jesus de cuidar de sua mãe. Não sei como nem quando os idólatras desta terra foram convertidos, mas o culto a Artemísia foi substituído pelo cristianismo. Uma casa onde supostamente Maria pode ter morado é objeto de visitação turística e religiosa.
Percorremos um grande sitio arqueológico, com belas ruínas em mármore de templos, teatros, biblioteca e banhos públicos - uma lição de história e cultura. Na saída, um conjunto de cordas tocava belas melodias.

A realidade atual faz juz à fama de comerciantes que os turcos grangearam pelo mundo a fora. Junto às ruínas, uma feira ao ar livre, com lojas e barracas apinhadas de mercadorias de baixo custo, imitações variadas de objetos de desejo: relógios, bolsas, lenços, roupas. A profusão de mercadorias lembra bem  Ciudad del Leste na nossa fronteira com o Paraguai, sem a ênfase nos eletrônicos...


Já nas proximidades do porto (foto), o comércio é simplesmente sensacional. Tem de tudo, do mais fino gosto ao mais puro cafona que facina o turismo cosmopolita. Adorei. Ainda bem que tenho muito peso na mala e pouco no bolso, para compensar a falta de juizo...
Na volta ao navio, passa-se por um belo free shop, grande e bem sortido, as mais legítimas e famosas marcas internacionais, em contraste com o mercado lá de fora.



Hoje é aniversário da Márcia e o objetivo primeiro desta viagem foi esta comemoração. Estou feliz de participar desta alegria, principalmente agora que conheço melhor e me encanto cada vez mais com a homenageada. Tivemos um jantar à altura da data, no restaurante Signatures - viva a Flora que tem iniciativa e bom gosto para programar um evento! Antes, na cabine do casal, a convite deles, brindamos com champagne - liquidando a garrafa com que o navio dá as boas vindas a seus hóspedes. (A minha está guardada no frigobar para uma ocasião apropriada, despedida, talvez...).

sábado, 22 de outubro de 2011

Diário de viagem, p.02: ATENAS

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Segunda-feira 19.09.2011
ATENAS
ATENAS: A Acrópole vista de dentro do Museu.

Atenas! Chegamos sábado à tarde, dia 17, conforme previsto, e fomos para o hotel Royal Olympic, uma beleza!
Jantamos num restaurante chamado Dionisius- recomendo! A vista, a lua e a comida, tudo acima das expectativas. A visão noturna da Acrópole toda iluminada é de tirar o fôlego.




Na manhã seguinte, domingo, dia 18, uma volta de ônibus pelos pontos turísticos da cidade e visita à Acrópole, numa manhã quentíssima. Muitos degraus irregulares, pouca sombra, nenhum intervalo nem assentos para descanso.



Não consegui chegar ao topo, quase morri de calor e cansaço. Pouco aproveitamento também no museu lindo e moderno, recentemente inaugurado. Eu não suporto mesmo o calor e as caminhadas acidentadas. Que fazer?
Outro restaurante fora de série é o Orizontes, no pico mais alto da cidade: chega-se lá de "teleférico", um trenzinho em plano inclinado e não um transporte por cabo como eu achava que seriam todos os teleféricos. De lá se vê toda a cidade, uma beleza!

Completamos a noite com um brinde no terraço de nosso hotel - outra vista maravilhosa! - brinde aos 29 anos de casamento de Ary e Márcia. A propósito, estou encantada com o casal. Gente fina!



A segunda feira, 19 de setembro, foi um dia muito longo que ainda não acabou, apesar de já serem quase 4 horas da manhã de terça!
Um dia que merece ser narrado, mas acho que vou dormir.
Estou esperando a sensação de ver o navio começar a navegar, mas ele permanece imóvel no porto.
Boa noite!

NOTA: quando acabei de escrever a ultima linha e me levantei, olhei pela porta de vidro que me separa da varanda e... já não vi as luzes do Porto de Atenas. O Regent Seven Seas Voyager navegava suavemente, sem balanço e sem ruído - imperceptivelmente! Que emoção! Aqui na cabine, sozinha, comemorei como se fosse um gol!

Dia seguinte, de manhã: Vou completar o que faltou na narrativa de ontem:
Desde a véspera, no hotel, tínhamos recebido o aviso de que haveria um atraso no horário de embarque, para os últimos ajustes na decoração do navio que tinha sido todo reformado. Ficaríamos, pois, em hospedagem provisória depois de deixarmos nosso hotel em Atenas.
Ruas do centro de Atenas.
Carece dizer que a segunda-feira foi um dia comprido: Pequeno passeio pelo comércio de Atenas, depois checkout no Royal Olympic, apresentação no Porto, translado pra um resort a mais de uma hora de distância. Foi um programa surpreendente,inesperado que tinha tudo para ser irritante, mas que se mostrou uma surpresa maravilhosa. Flora e eu, separadas dos nossos sobrinhos companheiros, passamos a tarde hospedadas num resort de primeiríssima linha, numa praia nos arredores da cidade, aguardando a condução que nos levaria a bordo.
O almoço foi num dos restaurantes do hotel, à beira-mar - a observar o pessoal lagarteando numa linda enseada, praia de areia, cais com escadinha de piscina, pequenas embarcações e wind surf . Na verdade, tão bem servidas de comidas, sorvete e vinho branco, e tão encantadas com a paisagem e a boa vida dos hóspedes, que por pouco não perdemos o ônibus. Com tanta distração, esquecemos da hora e nem pudemos ir ao quarto para uma refrescada.
Embarcamos depois do anoitecer e começou, no navio, uma vida boa que não tem tamanho! Essa noite foi de expectativa. Todos foram dormir, mas eu não consegui. Deitava-me e, insone, voltava excitada à varanda da cabine. Cais movimentado (sem barulho, diga-se) debaixo de minha sacada, carretas e paletes descarregando no navio o suprimento para o cruzeiro. Esperei até quase as 4 hs. ocupando-me em escrever estas mal traçadas e, de repente, o Porto havia sumido, o Voyager já navegava...
Minha cabine. Estou escrevendo na mesinha da sacada, de onde tirei esta foto.
Mas ontem à noite, eu estava na escrivaninha à esquerda, quando o navio se moveu.

Diário de Viagem, p.01: RUMO À EUROPA

Rumo à Europa via TAP

Para partilhar neste blog as emoções de uma linda viagem, vou aos poucos editando minhas anotações. Pretendo publicá-las em etapas. Por isto, o dia de publicação registrado no Blog de Ledices não corresponde à data de cada título - quando os fatos narrados realmente aconteceram.
16.09.2011 - Rumo à Europa Via TAP
Malas prontas! Dia chuvoso, nublado. Espero que o trânsito seja camarada para eu chegar cedo a Confins.
É a primeira vez que faço sozinha um vôo internacional. E tudo, na primeira vez, tem um sabor especial...
Vou em vôo direto até Lisboa, onde me encontro com os companheiros de viagem: Flora, Márcia e Ary. Uma noite de sono no avião e estarei pronta para a aventura inusitada a bordo de um navio enorme, experiência que eu jamais pensara em enfrentar. Na verdade meu medo era do balanço das ondas, coisa superada pela avançada tecnologia que mantém as naves em equilíbrio.
Estou preparada para ficar sempre bem disposta e aproveitar ao máximo tudo o que o cruzeiro me der de bom.
De Lisboa a Zurique é um pulo. Depois, outro para Atenas e, após um período de curtição em terra, partir para as belezas no mar Egeu, no mar Jônico e no Adriático. Da Grécia à Itália, com paradas também na Turquia, Montenegro e Croácia, são dez dias de mar, portos, ilhas e montanhas, cada um com sua história e seus mitos. E, por fim, rever Veneza!

Lá vou eu!

Foto: encontro inesperado em Confins, com Carla e seu grupo a caminho da Itália, para um tour de bicicleta!!!






terça-feira, 16 de agosto de 2011

Dia dos Pais

Recebi hoje a mensagem do Dia dos Pais da Escola Lúcia Casasanta, um texto da Coli, a cara dela. Ela escreveu sobre o pai dela que conheci bem. Acho que preciso reproduzir aqui esta mensagem:

AOS PAIS DOS NOSSOS ALUNOS E A TODOS QUE DESEMPENHAM ESTA FUNÇÃO


Procuramos muito um texto ou uma poesia que fale de “Pai” para enviar nesta véspera do “Dia dos Pais”. Não encontramos. Os que nós gostamos, foram enviados nos anos anteriores. Antes que possam ser enviados novamente, eu, Coli, tomei a liberdade de falar do meu pai para vocês, pais, avôs, padrinhos, tios e amigos dos nossos alunos. É só um depoimento. Recebam-no como uma declaração de afeto. De afeto e de admiração. Ser pai é tarefa de muita responsabilidade. Vocês a tem desempenhado com louvor. Parabéns! Recebam também um grande, um enorme abraço de todo mundo da escola! Pai faz muita falta. Sua presença é tão importante que, se não podemos contar com ela, tratamos de substituí-la por um avô, padrinho, tio, enfim, alguém que possa nos proteger. Porque essa é uma das funções do pai: nos proteger. Inclusive, de nós mesmos, educando-nos. Meu pai tinha a saúde frágil. Mas me protegeu muito. Estudava comigo, acreditou em mim. Com ele, aprendi a gostar de balas de café, a ouvir canarinhos e o barulho da chuva. Após o jantar, sentávamos na varanda para ver as estrelas. Ele, minha mãe e a gente – éramos 10 filhos. Deitada no chão, eu brincava com os besouros que vinham com a noite, enquanto os ouvia conversar. Eram conversas amenas, conversas de amigos, pois criança percebe o clima e o clima era de leveza, nesses momentos. Momentos felizes. Meu pai amava ler. No nosso quintal, havia uma outra casa: sua biblioteca. Quando criança, eu brincava de pegador entre as estantes e brincava com os livros. Fazia casinha de livros: parede de livro, telhado de livro... Enquanto isso, ele lia e estudava. Lia antes de dormir e madrugava para ler, antes de ir trabalhar. Ao voltar para casa, sempre havia – além dos caramelos! – um pacotinho de livros nas suas mãos. Os livros chegavam a nossa casa de toda parte do mundo! Meu pai adorava dar aulas e dizem que foi um bom professor. Acredito que sim, pois foi com ele que aprendi a gostar de ler. Era paciente ao me ensinar. Comentei, com alguns de vocês, que até os meus 11 anos tive muita dificuldade na escola. Eu não retinha as informações. Se, pela manhã, eu sabia o conteúdo, à tarde, já não me lembrava mais. Num tempo em que não havia diagnóstico nem tratamento para esse déficit, contei com a presença paciente do meu pai ao meu lado, durante alguns anos, estudando comigo com toda a paciência do mundo. Intrigado com o que via, é verdade. Certa manhã, ao perceber que eu não tinha a menor ideia do assunto que havíamos trabalhado intensamente no dia anterior, ele me disse uma frase fundamental para a minha autoconfiança: “- Engraçado, Coli, você não é burra!” Até hoje, me lembro do seu estranhamento. No início da adolescência, em compensação, já livre do meu problema, vivemos ótimos momentos com os livros. Meu pai, todas as noites, pedia que eu lesse para ele. A princípio, eu achava ruim: ouvia as vozes dos meus irmãos brincando; queria mais era estar com eles. Reclamava com minha mãe. Mas a resposta dela era sempre a mesma: – Seu pai está te esperando!E, então, aconteceu o “milagre”! À medida que minha leitura ganhava fluência, passei a adorar ler com o meu pai! Agora, eu é quem esperava ansiosamente para ler com ele, após o jantar. E, juntos, lemos de um tudo: de Julio Dinis e Julio Verne a Machado de Assis. Pouco tempo depois, meu pai morreu. Dizem que continuamos eternos enquanto alguém se lembra da gente. Acredito. Meu pai continua vivo na minha cabeça e no meu coração. Coli Caiafa

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Palmadas


Quando ouço notícia de que o Parlamento está bolando uma lei nova sobre tema pontual, isolado, da educação, já sei: lá vem bobagem. E é tiro e queda, vem mesmo.
Agora é a Lei da Palmada. Como se lei adiantasse alguma coisa para ensinar aos pais como se educa uma criança!
E, de quebra, o risco da mensagem ser mal interpretada, como sempre acontece nos assuntos mais delicados da educação, quando tratados à parte de sua fundamentação teórica e do seu contexto histórico.
As leis existentes já são suficientes para punir com rigor, como a qualquuer outro adulto, os pais que se excedam e cometam violência contra seus filhos. Se o poder público não dá conta dos casos graves de maus tratos, espancamento e abandono que vicejam por aí, como vai se ocupar do que acontece no dia a dia dos lares?
Melhor seria o investimento em campanhas educativas – pais precisam ser instruídos para educar, como se faz a favor da alimentação saudável e contra os vícios. Filho não vem com manual de instruções e a ansiedade em acertar pode gerar algum destempero, ainda que involuntário, passageiro e seguido de lágrimas de arrependimento. As palmadas corretivas e os gritos incontidos quase nunca são fruto de desamor, mas de despreparo, de desespero por acertar, de cansaço e frustração diante das dificuldades - pois educar não é fácil e paciência tem limites...
Uma luta sem trégua nos meios de comunicação, pelo esclarecimento, para mostrar que os castigos físicos podem ser substituídos pelo diálogo e outras formas de convencimento e até mesmo de punição – isso sim, esse combate é necessário.
Os pais dispõem de muitas alternativas para impor sua autoridade, não podem abrir mão dela, tem o dever de orientar e corrigir, mas precisam dar exemplo de autocontrole – entre outros. Cumpre-lhes mostrar aos filhos que é possível resolver conflitos, divergências e frustrações, sem uso da força e da violência – física ou moral.
Uma lei que proíbe palmadas, por via de interpretação apressada, pode gerar muitos mal-entendidos. Só de pensar um pouquinho, eu mesma já imaginei vários...

Beijos a vocês que visitam meu blog.
Ledinha