sexta-feira, 1 de maio de 2015

RIGA, um encontro com a alegria

22 e 23 de maio de 2014: Riga

Nesta fase da viagem, já estamos à beira do Mar Báltico. Ao chegar a Riga, capital da Letônia, a sensação é de pisar um mundo mais leve, mais arejado, com menos amarras à dor e às pompas do passado. A idade avançada aparece no casario e nas pedras das ruas, mas o som, o ar mundano e as cores tornam esta cidade - o termo que me ocorre é: álacre. As palavras mais usuais e corriqueiras não conseguem, por si só, expressar o espírito que rege o modo de ser das coisas e das gentes em Riga. Ali, o ambiente é alegre, vivo, animado, colorido - em resumo, é álacre.  


A partir do pátio interno, as paredes de vidro ao redor,
com painéis de cor forte.

Começa pelo prédio do hotel: um caixote enorme todo revestido de vidro por fora no qual mesmo as paredes internas do saguão são transparentes ou espelhadas, provocando sensações esquisitas, pois às vezes é difícil saber se estamos vendo o outro ambiente através do vidro ou se é o reflexo pelo espelho.
Todos os andares têm vista para o vão interior do prédio, onde fica um pátio com mesinhas de bar.
Mas o mais fascinante é mesmo a rua. Música o tempo todo, gente com roupas de cores alegres, muito short e camisetas bem ao sabor do verão. De manhã é fresquinho mas à tarde faz bastante calor, um convite a sair de casa, a conviver, cantar, dançar.
Piano montado em carroceria de automóvel.
Bares de aparência bizarra, decoração espalhafatosa, inferninhos anunciando atrações apimentadas. Foi o que pudemos ver no próprio dia de nossa chegada, pois a tarde que se faz bem longa é propícia a uma primeira exploração do ambiente.
Uma pequena excursão pela rua principal e uma refeição ligeira já nos causam uma primeira impressão bem contrastante com as cidades e lugares que acabamos de visitar.  Aqui é a morada da alegria. Vamos dormir bem animados e curiosos de conhecer melhor esta cidade intrigante. 
Riga é habitada por uma maioria russa, sendo apenas 42% de letões.
Aqui se vende o Black Magic, um licor que cura qualquer
indisposição - salvou a Rainha de grande embaraço. 
Pelas entrelinhas de comentários locais me pareceu que essa forma de composição demográfica foi adotada estrategicamente nos tempos da União Soviética. Os russos não se dão sequer o trabalho de aprender o idioma letão, formando, portanto, uma casta à parte na sociedade do país. Esse estratagema já trazia em si, consciente ou não, a possibilidade de uma reconquista, como é o caso em curso na Ucrânia, revelando a vocação imperial da velha Rússia. 






Riga é um porto no Mar Báltico junto à foz do rio Daugava e é banhada também pelo rio Ridzene, este último antigamente denominado Riga, que deu seu nome à cidade, originária de um assentamento da tribo bárbara dos livônios. O nome Riga é mais conhecido no Brasil como designação da madeira que, saindo por esse porto, era antigamente importada dessa região - o precioso “pinho de riga” disponível hoje apenas no comércio de material de demolição. 
A cidade foi fundada nesse local, no século XII, por comerciantes e cruzados atraídos pela localização favorável ao mercado e pelo desejo missionário de realizar conversões ao cristianismo. A maioria dos letões é formada de protestantes ou católicos romanos. Os russos em geral professam a religião Ortodoxa Russa, cujas igrejas permanecem fechadas à visitação. 


De manhã, no dia 23, saímos com o guia local, um letão simpático que nos fala em espanhol, a percorrer as ruas e praças da cidade antiga. Trata-se de uma cidade com muitas construções conservadas intactas desde a Idade Média, mas que se orgulha de seus edifícios dos séculos mais românticos, ditos comparáveis aos de Paris, Viena e Barcelona. São relíquias com a interpretação local de art-nouveau, localizados nos bairros tradicionais que abrigam algumas das mais importantes embaixadas do país.
Prédio da Prefeitura

No entanto, o que impressiona com mais força são as cores e formas dos prédios ancestrais carregados de história e de lendas, nas praças floridas e nas vielas tortuosas, que compõem o Centro Histórico declarado, pela UNESCO, Patrimônio Cultural da Humanidade.
O prédio da Prefeitura é um exemplar curioso, cor de abóbora, de forma bizarra, que já foi sede de uma associação medieval denominada “Cabeças Negras”, cujo patrono, era um santo africano - São Maurício.
Na foto, um pássaro pousado na ponta do rabo do gato
A Casa do Gato




No alto de outro edifício, pode-se ver a escultura de um gato, cuja história hilariante acabou por transformá-lo em mascote ou símbolo da cidade. Em todas as lojas há reproduções desse gato com variações de material e tamanho, para vender aos turistas. Conta-se que o prédio foi construído por um rude lavrador que tinha feito fortuna recentemente pela força de seu trabalho bem-sucedido no campo. Desejoso de ser aceito na sociedade abastada tradicional da cidade, depois de instalado no seu palacete, tentou ingressar no clube mais aristocrático da cidade, localizado no prédio fronteiro.

Espalhados pelas calçadas, esculturas de
 patos e outros animais montados com pedras 


Naturalmente, pelos costumes da época, seu pedido foi negado. Indignado, o homem plantou no alto de seu telhado, uma imagem de gato com a cauda levantada e o traseiro voltado para as janelas do dito clube. Impossibilitados de evitar a visão provocadora, os associados acabaram por ceder e acolheram o novo-rico em sua convivência, que, afinal mostrou-se muito agradável e interessante. O gato permanece no telhado até hoje, mas com o traseiro voltado para o lado oposto.





Admiro esse povo interessante e criativo, capaz de se expressar com humor e sutileza! Vejam este enorme caramujo, como outros espalhados pela cidade. Cada esquina e praça tem um, cada um de uma cor.Trata-se de um protesto contra a lerdeza do governo que não cumpre a promessa de inaugurar um museu de arte moderna a tempo de compor programação cultural prevista para esse ano, na comemoração de uma data importante para a história da cidade. 
Um trombone e uma sanfoninha, na
Aquarela do Brasil























Na rua convivem o ritmo forte do rock pauleira e, numa esquina, um som da maior suavidade, tocado por uma jovem solitária. Também encontramos um pequeno conjunto musical dedicado a agradar os turistas tocando músicas de suas terras de origem. Para nós, foi a Aquarela do Brasil de Ari Barroso. 




A praça central foi construída sobre as águas canalizadas de um ribeirão. Para preservar a memória da natureza modificada, o projeto paisagístico apresenta flores azuis e brancas plantadas em linhas sinuosas, simbolizando o movimento das águas suprimidas da paisagem. 
O passeio matinal termina com almoço num excelente restaurante de comida a quilo, o Lido. Coquetéis de frutas de todas as cores dão um toque festivo ao ambiente. Tudo muito bonito e gostoso.

Depois olhamos artesanato  - cerâmica e âmbar falso - em barraquinhas de rua  e visitamos a respeitável Loja do Linho, uma profusão de mercadorias da mais alta qualidade, roupa de cama e mesa, mantas e chales, tudo lindo, bem apresentado e acondicionado. Difícil resistir à vontade de comprar.  
Para completar, sufocadas pelo calor intenso da tarde, ao preço de 20 euros, eis-nos a bordo de um bendito riquixá conduzido por um deus grego semi-nu, um sucesso! Ao saber que somos brasileiras, ele põe, no som de seu celular, nada menos do que Joelma e Chimbinha, da Banda Calipso, entre ritmos baianos de axé! Pode, em plena Letônia?
Assim somos conduzidas ao Hotel, para um merecido descanso refrescante, a fim de estar em condições de sair à noite para comemorar o aniversário do Gui, genro de Elayse, paciente e gentilíssimo comandante de nosso pequeno grupo. Merecida homenagem, feita com carinho e descontração.
O porteiro, em trajes de época


















O restaurante medieval foi escolhido a dedo para a ocasião, por sua originalidade. As iguarias - explica o cardápio - são feitas com ingredientes e técnicas originais da Idade Média. Para maior realismo, o ambiente aconchegante é iluminado com velas, à meia luz. Não há porém ar refrigerado e a luz das velas ilumina pouco e aquece muito, decoração adequada à proposta da casa, mas que traz certo desconforto, apesar do romantismo. Mesmo assim, que noite agradável, que vinho bom e que comida especialmente saborosa! 
Uma verdade se impõe: com esses companheiros, não há tempo ruim!



Ao sair do restaurante, às 11 horas, (vejam a foto!) o céu está bem claro, ainda não anoiteceu, mas o aniversário do Gui está terminando! Guilherme, parabéns!
Assim, damos boa noite a Riga, cidade realmente encantadora! Ainda temos uma longa viagem amanhã pelas estradas da Letônia, em direção à Estônia.





domingo, 22 de março de 2015

Da Lituânia à Letônia - lições de História.



22 de maio de 2014: um dia na estrada

Saindo de Vilnius pouco depois das oito horas da manhã, rumo noroeste em direção à Letônia, ainda temos pela frente muito chão lituano. E nesse caminho, novas experiências nos esperam. Em muitos pontos da estrada, o corredor de pinheiros é substituído por vastos campos floridos de canola.
Nessa altura da viagem, o grupo já está mais entrosado e especialmente animado com a descoberta de que é aniversário de nossa companheira Elayse. Ela, com discrição e elegância, conquista a todos e recebe, modestamente, grandes declarações de admiração.
Aniversariante do dia, elegância e simpatia na hora do almoço.
Esse ambiente descontraído e festivo muito contribui, pelo contraste, para o choque da surpresa que nos aguarda, na forma de uma paisagem realmente impactante: a Colina das Cruzes, principal motivo da fama de Siauliai, a quarta maior cidade da Lituânia. Não visitamos a cidade propriamente, pois o ônibus nos deixa diretamente na área da Colina. O número exato de cruzes é desconhecido; estima-se, todavia, que em 2006 já superava 100 mil.
Que espetáculo surpreendente, diferente de tudo: um terreno coberto de cruzes sobre as quais não há entendimento quanto a sua quantidade, realmente impossível de contar. Cruzes e crucifixos de todo tipo de material, tamanho e feitio cobrem toda a pequena elevação do terreno, mas esse número cresce sem parar, pois a cada dia mais e mais exemplares são plantados no chão, pendurados em cercas e galhos de árvores, junto com imagens, terços e outros objetos de inspiração religiosa.


Muitas lendas misturadas a fatos históricos tentam explicar a origem e o desenvolvimento desse fenômeno. O que fica claro em todas as narrativas é que as primeiras cruzes remontam a tempos muito remotos e eram realmente manifestações de cunho religioso, como por exemplo, a história de um pai que ali erigiu um pequeno altar com uma cruz em agradecimento pela recuperação de sua filha doente. O gesto foi reproduzido solidariamente por seus amigos e vizinhos. Outros dão conta do aparecimento das cruzes no século XIX, não apenas como ato religioso, mas também político - manifestação silenciosa de famílias católicas contra o domínio czarista. As cruzes representavam os entes queridos dos lituanos que lutavam pela libertação do país, deportados para a Sibéria por ordem do Czar, sabendo-se que jamais retornariam a seus lares e nem seria possível localizar seus túmulos.
No século XX, essa expressão de rebeldia cresceu como arma pacífica de protesto e luta, quando o governo soviético proibiu as manifestações religiosas e mandou destruir as cruzes. Cada vez que eram destruídas, o povo, determinado a preservar suas tradições, as repunha imediatamente. A cada manhã, como por magia, lá estavam elas e muitas mais a desafiar a autoridade repressora. Com a independência da Lituânia essa tradição se fortaleceu, mantida como símbolo da luta do povo pela liberdade. Emocionante.

Pela singularidade e força de seu impacto estético e emocional, a colina atualmente é inegável atração turística. Nesse sentido e pelo significado histórico, pode render muito dinheiro para a Lituânia, mas também, sem dúvida, inspirar tantos debates e controvérsias quantas venham a ser as cruzes fincadas na colina, acrescidas diariamente das que são vendidas na feira junto ao estacionamento dos ônibus.


Em 1999, o Papa João Paulo II esteve no local e deixou a seguinte mensagem, atualmente gravada em lituano, de um lado, e em inglês, de outro, no monumento comemorativo dessa visita: 
" AGRADEÇO AOS LITUANOS ESTA COLINA DE CRUZES QUE ATESTA PARA AS NAÇÕES DA EUROPA E PARA O MUNDO TODO A FÉ DO POVO DESTE PAÍS" João Paulo II, 7.9.1993
Esta foi nossa última parada em território lituano. Seguindo viagem, entramos na Letônia, onde somos introduzidos no fausto mundo da nobreza e do poderio imperial russo. Situado 79 Km antes de Riga, nosso destino final do dia, encontramos o castelo de Rundale, um dos maiores bens históricos da Letônia e o mais importante palácio no estilo barroco do país.
Percorrendo jardins floridos e à sombra de árvores centenárias, somos primeiro conduzidos a um restaurante existente no local, para um almoço previamente encomendado. À sobremesa levantamos um brinde alegre e afetuoso à aniversariante Elayse, prima a quem devo a felicidade do convite para participar desta excursão.
O castelo de Rundale foi projetado por Francesko Bartolomeu Rastrelli, famoso arquiteto francês residente na Russia, A construção se deu de 1735 a 1740 para servir de residência de verão do Duque da Curlândia, Ernst Johann Von Biron. Imagina-se como deve ter sido difícil essa construção, em lugar ermo onde na época não havia estradas, artesãos nem material de construção de qualidade. Mais de mil operários russos foram contratados para a empreitada, utilizando tijolos fabricados no próprio local.
Em volta do palácio foram plantadas tílias, castanheiras e carvalhos, somando perto de 370.000 mudas de árvores. Em 1740, o dono do palácio Conde Biron passou a regente do Império Russo, mas acabou condenado à morte. No entanto veio a conseguir revisão da pena e, por isso, foi deportado para a Sibéria e teve seus bens confiscados.  Quando Pedro III tornou-se Imperador da Rússia, em 1762, os bens e títulos foram devolvidos a Biron e o palácio foi reconstruído em estilo rococó. 
Mas as propriedades privadas naquela região têm tido história sempre incerta e instável. Em 1795 Catarina, a Grande, deu o castelo de presente ao Príncipe Zubov, como era seu costume. Dizem as más línguas que essa poderosa Imperatriz tinha muitos “amigos do coração”. E quando se cansava de algum deles, entregava-lhe uma porção de terra de seu imenso império para explorar e governar, dava-lhe um belo castelo suntuoso e, assim o mantinha a distância, vaidoso e agradecido!
Por ocasião da I Guerra Mundial os alemães transformaram o palácio em hospital militar, mas em 1919 durante a guerra civil da Letônia, Rundale foi parcialmente destruído. Em seguida à guerra e com a vitória da revolução comunista o castelo foi confiscado pelo regime soviético. No palácio funcionou ainda uma escola primária e também foi sede de uma associação de pessoas mutiladas pela guerra. Em 1972 foi restaurado e transformado em museu. 
Com a independência da Letônia, o palácio tem sido regularmente restaurado e recebe cuidadosa manutenção.

O acervo do museu palácio contém além do mobiliário, rica coleção de porcelanas, cristais, pinturas e salas belíssimas. Uma capela guarda em sarcófagos os restos mortais dos moradores do palácio. Também existem peças de vestuário de diferentes datas e salas de refeição que exibem mesas postas com toalhas e serviços completos de época.

Lá fora, os belos jardins de desenho francês imitam com beleza e amplitude o modelo de Versailles.

Caminhando entre canteiros, no cair da tarde, é possível apreciar as cegonhas, aves símbolo da Letônia, recolhendo-se aos ninhos no alto dos telhados.
No entanto, ainda há muitas horas do dia pela frente. Pois neste país, nesta época do ano, com a aproximação do verão, os dias já são bem longos e as noites muito curtas. Aqui só se faz noite escura depois das 23 horas e o dia amanhece às 5 horas! É preciso tomar cuidado de cerrar bem as cortinas, para ter uma boa noite de sono e não se deixar enganar pela luminosidade precoce da manhã. 

Dando o castelo por visitado e bem visto - e gratos pelo que aquelas paredes nos ensinaram da instabilidade da História e da riqueza humana - seguimos viagem para Riga, capital deste país fascinante, a Letônia que parecia tão distante nos mapas da Europa do meu Atlas Escolar.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Vilnius, diversidade e fé.

20 e 21.05.2014 – Vilnius, a mais religiosa capital da região do Báltico

A bela Vilnius moderna abriga patrimônio cultural da
humanidade reconhecido pela UNESCO
Saímos de Varsóvia após o café da manhã, rumo nordeste, em direção à vizinha Lituânia. Ainda temos longo percurso em terras polonesas. Bom lembrar que estamos na Europa, por isto não é preciso se preocupar com as estradas, sempre bem sinalizadas, pavimento impecável. Civilização de muitos séculos. Os doze passageiros se encontram na porta do hotel e - lá vamos nós. A paisagem logo se torna repetitiva, a mesma linha reta cercada de pinheiros, quilômetros a fio. Dentro do ônibus a alegria de partilhar uma aventura, novas pessoas que passam a fazer parte de nossas vidas.



Uma parada para um café na localidade de Lomza, depois mais estrada e um almoço nas proximidades da cidade de Augustow - no bar e restaurante Abro, bem situado à beira da estrada, comida gostosa, ambiente agradável. Do salão pode-se apreciar, a perder de vista, uma plantação de canola em floração, lindo campo de vegetação rasteira em tons de verde e flores douradas.
Ao pagar a refeição, aproveito para torrar, em barras de chocolate, todo o restante de “zlotis”, até o último tostão. Na véspera o guia nos prevenira que a moeda polonesa não seria aceita na vizinha Lituânia, por isto já saímos de Varsóvia com o mínimo estimado para os gastos de viagem em território polonês. Agora é hora de liquidar com essa reserva. (O zloty que significa "dourado", "áureo" ou "de ouro" é a unidade da moeda polonesa)
Depois do almoço, mais um trecho, já em território lituano e chegamos a Vilnius, também chamada Vilne, Vilna ou Wilno, e mais uma variedade de nomes, de acordo com os diferentes idiomas de sua população multicultural e a vizinhança de países com línguas que se fundem e se multiplicam. Vilnius se localiza na confluência dos rios Neris e Vilna - este último atravessa a cidade e lhe empresta o nome.

Antigamente, quando era apenas um pequeno ducado, a Lituânia tinha sua capital bem no centro do país, mas com o passar dos séculos, houve muitas mudanças na composição de seu território. Vilnius se localiza a apenas 30 km da fronteira com a Bielorrússia do lado oposto ao litoral do Mar Báltico.
Vista da praça a partir da portaria do Hotel
Ao longo de sua existência conturbada, situação comum aos países da região, a Lituânia passou por diferentes tipos de dominação mas, na sua história mais recente, não se sabe qual a pior, se a nazista ou a soviética. Segundo a moça loura, linda e simpática que nos serviu de guia turística local, a sofrida conquista da liberdade e o aprendizado da democracia faz o povo lituano muito cioso de sua língua, proibida durante a dominação comunista. A língua lituana é tida como o principal símbolo do orgulho de um povo que faz questão de se posicionar perante o mundo como uma nação livre e autônoma. O mesmo ocorria com a moeda local, denominada Litas, motivo pelo qual, durante nossa permanência, foi possível perceber uma forte resistência à adoção do Euro, apesar do interesse em integrar o mercado comum europeu. (Mesmo assim, a moeda lituana foi substituída pelo Euro em 1º de janeiro de 2015, à taxa de 3,45280 LTL por 1 euro). 
A primeira impressão, logo ao descer do ônibus, é de deslumbramento pela luminosidade do sol da tarde, que tinge de róseo dourado as fachadas dos prédios de elaborada arquitetura ao redor da praça onde fica nosso hotel, um dos inúmeros Radisson existentes no mundo, instalado em um prédio bem antigo com adaptações contemporâneas. Além de confortável e elegante, seu principal atrativo é a localização numa praça ampla, com várias opções de comércio e gastronomia. Joias, bijuterias, tecidos e adornos em geral. Muito linho e âmbar, produtos típicos da região báltica.
Depois de acomodada nossa bagagem, saímos a pé para explorar o ambiente próximo e completar o dia com um jantar em plena área comercial a poucos quarteirões do Hotel. Não posso me furtar de registrar aqui a elegância da prima Tucha, com sua nova aquisição, um chale tecido em malha de legítimo linho lituano, de caimento impecável.
Prefeitura de Vilnius
A excursão da manhã do dia seguinte, (21 de maio) nos coloca diante de vários ângulos da arquitetura da cidade, cuja opulência de formas expressa os valores desse povo multicultural, com relevância para a religiosidade. A cidade, também é conhecida como a “Jerusalém da Lituânia”, um lugar heterogêneo, que agrupa pessoas de 92 nacionalidades diferentes. Seus pouco mais de 600 mil habitantes representam a quinta parte de toda a população do país.



O Centro Histórico de Vilnius, datado do século XIV, foi considerado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, em 1994.
Residência do Bairro Judeu

Com seus 53 templos, sendo 36 católicos e os restantes predominantemente judaicos e ortodoxos, não é de se estranhar que tenhamos visto tantas igrejas, capelas e conventos.

Passamos pelo bairro judeu, em que a sobriedade do casario contrasta às vezes com elementos decorativos ingênuos e coloridos. Pudemos ver e apreciar, sem entrar, os prédios da administração local e o Palácio do Governo , cercado de jardins e grades artísticas.
Jardins do Palácio do Governo
Universidade


Mapa da Universidade
A universidade ocupa um conjunto de prédios representados num mapa em relevo, confeccionado em metal, afixado junto a um dos portões de entrada.

As ruas são muito bem cuidadas e ornadas com vasos de flores,quase todos de amores-perfeitos de colorido variado.
Entre as obras sacras, a Catedral – que detém também o título de Basílica, a mais alta categoria de templos católicos – destaca-se por sua imponência e tamanho, assim como pelas estátuas ornamentais de suas galerias externas e o imenso campanário que domina a praça que a cerca.
Uma das pedras do pavimento na praça da Catedral é decorada com a palavra “stebuklas” (milagre) em letras incrustadas em fundo colorido. Diz a lenda que quem quiser realizar um desejo, deve ficar de pé sobre essa pedra, fazer o pedido e rodar 360graus.
Foi exatamente nesse lugar que começou, em 1989, uma corrente humana, a "Corrente Báltica", que se estendeu através da Lituânia, Letônia e Estônia para chamar a atenção do mundo para o sofrimento, comum aos três países, durante a política de anulação de identidade nacional imposta pela União Soviética. No ano seguinte, a Lituânia recuperou o direito de falar sua língua pátria e, em 1991, o país conquistou sua independência. Desejo realizado! Milagre? Stebuklas!
Imagem de São Cassimiro na capela da Catedral
Muitas lendas em torno da vida de santos ilustram a história verdadeira ou imaginária de personagens que se perdem na distância dos tempos de riquíssima tradição oral. Uma das capelas da catedral homenageia São Cassimiro, filho do rei da Polônia que é o padroeiro da Lituânia. Na capela há uma imagem sobre a qual se acredita haver interferência divina ou do próprio santo na obra do artista que a pintou. Há uma outra igreja dedicada a esse santo, cujas torres podem ser avistadas, da calçada de nosso hotel, erguendo-se sobre a silhueta do casario do lado oposto da praça.
Igreja de Santa Ana
Outra igreja muito bonita, toda em tijolos vermelhos e linhas góticas, é a Igreja de Santa Ana. Conta a lenda que sua construção havia sido contratada a um experiente arquiteto, já entrado em anos. Acontece que, enquanto fazia o projeto, sua filha se casou e o genro, também arquiteto, arvorou-se em dar tantos palpites que o ancião, impaciente, acabou por entregar-lhe a empreitada. No entanto, terminada a obra, o templo ficou tão bonito e mereceu tantos elogios que, tomado de ciúmes, o velho chamou o genro para apreciar a vista do alto de uma das torres e, lá em cima, deu um empurrão no jovem, jogando-o ao chão e provocando sua morte instantânea.

Diante dessa igreja há uma escola de arte e, por obra de seus alunos, as árvores em frente têm seus troncos deliciosamente “vestidos” com retalhos coloridos de tecidos, malhas e crochê. Foi aí também que registrei uma das cenas que mais me encantam em todos os países da Europa que tenho visitado: as crianças, desde pequeninas, em grupos acompanhados de suas jovens professoras, atravessando o jardim para visitar o parque, brincar ao ar livre, conhecer monumentos e obras de arte.


Igreja de São Pedro e São Paulo


Visão geral do interior do templo de São Pedro e São Paulo

A Igreja da Santa Mãe de Deus, com mais de seiscentos anos, é o principal santuário da fé Ortodoxa na Lituânia.


Outro ponto interessante de nossa excursão foi a visita ao Museu do Ambar, que exibe peças de decoração, jóias e objetos de tamanhos, formas e cores diferentes feitos com essa pedra considerada o ouro do Báltico. O colorido do âmbar vai do branco ao negro, passando por vários tons de amarelo e marrom, o que proporciona uma rica variedade de combinações e efeitos. Aí ficamos sabendo que o âmbar é uma substância mineral não cristalizada, de origem vegetal, pois é o resultado da fossilização há milhões de séculos, da resina de uma determinada espécie de pinheiro atualmente em extinção. Há, portanto o risco de escassez dessa riqueza muito apreciada não apenas na área dos adornos em que é mais conhecida, mas também por suas propriedades magnéticas e aplicações em eletricidade.


O passeio matinal termina com o ônibus nos deixando a uns duzentos metros do hotel. Nesse trecho pedestre, passamos sob o único pórtico que resta da muralha medieval que cercava a cidade. Sobre o arco desse pórtico, fica uma igreja bem singular. No momento em que passamos, pudemos ouvir a música de um culto que enche a rua de sons, em plena quarta-feira: suaves cânticos de um coro em contraste com a voz grave e imperiosa do celebrante.

Um sanduíche comido às pressas ali na praça substitui o almoço. Em seguida partimos de ônibus para uma excursão ao Castelo de Trakai, a 30 km de Vilnius, construção medieval terminada no século XIV e restaurada em meados do século XX. Passadiços de madeira levam-nos sobre as águas do lago Galvé até o castelo. O edifício é bem rústico, paredes sem revestimento e escadas de madeira. Pouco mobiliário e muito pouco adorno retratam o estilo de vida dos seus habitantes, contemporâneos da cristianização do norte e leste da Europa, a partir do século XIII.


A paisagem em torno do castelo encanta, por causa dos lagos que o cercam em cujas águas se fazem ver os efeitos de um lindo entardecer.
Sempre a meninada!
Devo confessar que preferia aprofundar mais a visita a Vilnius, fartar-me de Arte e História, conhecer mais sobre os efeitos das lutas e conquistas do povo lituano na convivência de realidades tão heterogêneas, na política, na guerra, na religião. Mas devo reconhecer que, em Trakai, foi um prazer aproveitar a paz e a beleza de uma linda tarde de sol.

Só mesmo estando ali para sentir essa beleza.

Já de volta a Vilnius, ao anoitecer, na claridade teimosa do fim do dia, saímos a pé olhando as opções da vizinhança e escolhemos jantar ao ar livre, num ótimo restaurante, mesas dispostas num pátio interno muito agradável. Nossa noite terminou em perambulações pelas ruas calçadas de pedras, sob as primeiras estrelas do céu que permanecia bem azul, como se vê na foto tirada quando o relógio marcava 10h30 min.
Amanhã deixamos Vilnius em direção à Letônia.