domingo, 22 de março de 2015

Da Lituânia à Letônia - lições de História.



22 de maio de 2014: um dia na estrada

Saindo de Vilnius pouco depois das oito horas da manhã, rumo noroeste em direção à Letônia, ainda temos pela frente muito chão lituano. E nesse caminho, novas experiências nos esperam. Em muitos pontos da estrada, o corredor de pinheiros é substituído por vastos campos floridos de canola.
Nessa altura da viagem, o grupo já está mais entrosado e especialmente animado com a descoberta de que é aniversário de nossa companheira Elayse. Ela, com discrição e elegância, conquista a todos e recebe, modestamente, grandes declarações de admiração.
Aniversariante do dia, elegância e simpatia na hora do almoço.
Esse ambiente descontraído e festivo muito contribui, pelo contraste, para o choque da surpresa que nos aguarda, na forma de uma paisagem realmente impactante: a Colina das Cruzes, principal motivo da fama de Siauliai, a quarta maior cidade da Lituânia. Não visitamos a cidade propriamente, pois o ônibus nos deixa diretamente na área da Colina. O número exato de cruzes é desconhecido; estima-se, todavia, que em 2006 já superava 100 mil.
Que espetáculo surpreendente, diferente de tudo: um terreno coberto de cruzes sobre as quais não há entendimento quanto a sua quantidade, realmente impossível de contar. Cruzes e crucifixos de todo tipo de material, tamanho e feitio cobrem toda a pequena elevação do terreno, mas esse número cresce sem parar, pois a cada dia mais e mais exemplares são plantados no chão, pendurados em cercas e galhos de árvores, junto com imagens, terços e outros objetos de inspiração religiosa.


Muitas lendas misturadas a fatos históricos tentam explicar a origem e o desenvolvimento desse fenômeno. O que fica claro em todas as narrativas é que as primeiras cruzes remontam a tempos muito remotos e eram realmente manifestações de cunho religioso, como por exemplo, a história de um pai que ali erigiu um pequeno altar com uma cruz em agradecimento pela recuperação de sua filha doente. O gesto foi reproduzido solidariamente por seus amigos e vizinhos. Outros dão conta do aparecimento das cruzes no século XIX, não apenas como ato religioso, mas também político - manifestação silenciosa de famílias católicas contra o domínio czarista. As cruzes representavam os entes queridos dos lituanos que lutavam pela libertação do país, deportados para a Sibéria por ordem do Czar, sabendo-se que jamais retornariam a seus lares e nem seria possível localizar seus túmulos.
No século XX, essa expressão de rebeldia cresceu como arma pacífica de protesto e luta, quando o governo soviético proibiu as manifestações religiosas e mandou destruir as cruzes. Cada vez que eram destruídas, o povo, determinado a preservar suas tradições, as repunha imediatamente. A cada manhã, como por magia, lá estavam elas e muitas mais a desafiar a autoridade repressora. Com a independência da Lituânia essa tradição se fortaleceu, mantida como símbolo da luta do povo pela liberdade. Emocionante.

Pela singularidade e força de seu impacto estético e emocional, a colina atualmente é inegável atração turística. Nesse sentido e pelo significado histórico, pode render muito dinheiro para a Lituânia, mas também, sem dúvida, inspirar tantos debates e controvérsias quantas venham a ser as cruzes fincadas na colina, acrescidas diariamente das que são vendidas na feira junto ao estacionamento dos ônibus.


Em 1999, o Papa João Paulo II esteve no local e deixou a seguinte mensagem, atualmente gravada em lituano, de um lado, e em inglês, de outro, no monumento comemorativo dessa visita: 
" AGRADEÇO AOS LITUANOS ESTA COLINA DE CRUZES QUE ATESTA PARA AS NAÇÕES DA EUROPA E PARA O MUNDO TODO A FÉ DO POVO DESTE PAÍS" João Paulo II, 7.9.1993
Esta foi nossa última parada em território lituano. Seguindo viagem, entramos na Letônia, onde somos introduzidos no fausto mundo da nobreza e do poderio imperial russo. Situado 79 Km antes de Riga, nosso destino final do dia, encontramos o castelo de Rundale, um dos maiores bens históricos da Letônia e o mais importante palácio no estilo barroco do país.
Percorrendo jardins floridos e à sombra de árvores centenárias, somos primeiro conduzidos a um restaurante existente no local, para um almoço previamente encomendado. À sobremesa levantamos um brinde alegre e afetuoso à aniversariante Elayse, prima a quem devo a felicidade do convite para participar desta excursão.
O castelo de Rundale foi projetado por Francesko Bartolomeu Rastrelli, famoso arquiteto francês residente na Russia, A construção se deu de 1735 a 1740 para servir de residência de verão do Duque da Curlândia, Ernst Johann Von Biron. Imagina-se como deve ter sido difícil essa construção, em lugar ermo onde na época não havia estradas, artesãos nem material de construção de qualidade. Mais de mil operários russos foram contratados para a empreitada, utilizando tijolos fabricados no próprio local.
Em volta do palácio foram plantadas tílias, castanheiras e carvalhos, somando perto de 370.000 mudas de árvores. Em 1740, o dono do palácio Conde Biron passou a regente do Império Russo, mas acabou condenado à morte. No entanto veio a conseguir revisão da pena e, por isso, foi deportado para a Sibéria e teve seus bens confiscados.  Quando Pedro III tornou-se Imperador da Rússia, em 1762, os bens e títulos foram devolvidos a Biron e o palácio foi reconstruído em estilo rococó. 
Mas as propriedades privadas naquela região têm tido história sempre incerta e instável. Em 1795 Catarina, a Grande, deu o castelo de presente ao Príncipe Zubov, como era seu costume. Dizem as más línguas que essa poderosa Imperatriz tinha muitos “amigos do coração”. E quando se cansava de algum deles, entregava-lhe uma porção de terra de seu imenso império para explorar e governar, dava-lhe um belo castelo suntuoso e, assim o mantinha a distância, vaidoso e agradecido!
Por ocasião da I Guerra Mundial os alemães transformaram o palácio em hospital militar, mas em 1919 durante a guerra civil da Letônia, Rundale foi parcialmente destruído. Em seguida à guerra e com a vitória da revolução comunista o castelo foi confiscado pelo regime soviético. No palácio funcionou ainda uma escola primária e também foi sede de uma associação de pessoas mutiladas pela guerra. Em 1972 foi restaurado e transformado em museu. 
Com a independência da Letônia, o palácio tem sido regularmente restaurado e recebe cuidadosa manutenção.

O acervo do museu palácio contém além do mobiliário, rica coleção de porcelanas, cristais, pinturas e salas belíssimas. Uma capela guarda em sarcófagos os restos mortais dos moradores do palácio. Também existem peças de vestuário de diferentes datas e salas de refeição que exibem mesas postas com toalhas e serviços completos de época.

Lá fora, os belos jardins de desenho francês imitam com beleza e amplitude o modelo de Versailles.

Caminhando entre canteiros, no cair da tarde, é possível apreciar as cegonhas, aves símbolo da Letônia, recolhendo-se aos ninhos no alto dos telhados.
No entanto, ainda há muitas horas do dia pela frente. Pois neste país, nesta época do ano, com a aproximação do verão, os dias já são bem longos e as noites muito curtas. Aqui só se faz noite escura depois das 23 horas e o dia amanhece às 5 horas! É preciso tomar cuidado de cerrar bem as cortinas, para ter uma boa noite de sono e não se deixar enganar pela luminosidade precoce da manhã. 

Dando o castelo por visitado e bem visto - e gratos pelo que aquelas paredes nos ensinaram da instabilidade da História e da riqueza humana - seguimos viagem para Riga, capital deste país fascinante, a Letônia que parecia tão distante nos mapas da Europa do meu Atlas Escolar.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Vilnius, diversidade e fé.

20 e 21.05.2014 – Vilnius, a mais religiosa capital da região do Báltico

A bela Vilnius moderna abriga patrimônio cultural da
humanidade reconhecido pela UNESCO
Saímos de Varsóvia após o café da manhã, rumo nordeste, em direção à vizinha Lituânia. Ainda temos longo percurso em terras polonesas. Bom lembrar que estamos na Europa, por isto não é preciso se preocupar com as estradas, sempre bem sinalizadas, pavimento impecável. Civilização de muitos séculos. Os doze passageiros se encontram na porta do hotel e - lá vamos nós. A paisagem logo se torna repetitiva, a mesma linha reta cercada de pinheiros, quilômetros a fio. Dentro do ônibus a alegria de partilhar uma aventura, novas pessoas que passam a fazer parte de nossas vidas.



Uma parada para um café na localidade de Lomza, depois mais estrada e um almoço nas proximidades da cidade de Augustow - no bar e restaurante Abro, bem situado à beira da estrada, comida gostosa, ambiente agradável. Do salão pode-se apreciar, a perder de vista, uma plantação de canola em floração, lindo campo de vegetação rasteira em tons de verde e flores douradas.
Ao pagar a refeição, aproveito para torrar, em barras de chocolate, todo o restante de “zlotis”, até o último tostão. Na véspera o guia nos prevenira que a moeda polonesa não seria aceita na vizinha Lituânia, por isto já saímos de Varsóvia com o mínimo estimado para os gastos de viagem em território polonês. Agora é hora de liquidar com essa reserva. (O zloty que significa "dourado", "áureo" ou "de ouro" é a unidade da moeda polonesa)
Depois do almoço, mais um trecho, já em território lituano e chegamos a Vilnius, também chamada Vilne, Vilna ou Wilno, e mais uma variedade de nomes, de acordo com os diferentes idiomas de sua população multicultural e a vizinhança de países com línguas que se fundem e se multiplicam. Vilnius se localiza na confluência dos rios Neris e Vilna - este último atravessa a cidade e lhe empresta o nome.

Antigamente, quando era apenas um pequeno ducado, a Lituânia tinha sua capital bem no centro do país, mas com o passar dos séculos, houve muitas mudanças na composição de seu território. Vilnius se localiza a apenas 30 km da fronteira com a Bielorrússia do lado oposto ao litoral do Mar Báltico.
Vista da praça a partir da portaria do Hotel
Ao longo de sua existência conturbada, situação comum aos países da região, a Lituânia passou por diferentes tipos de dominação mas, na sua história mais recente, não se sabe qual a pior, se a nazista ou a soviética. Segundo a moça loura, linda e simpática que nos serviu de guia turística local, a sofrida conquista da liberdade e o aprendizado da democracia faz o povo lituano muito cioso de sua língua, proibida durante a dominação comunista. A língua lituana é tida como o principal símbolo do orgulho de um povo que faz questão de se posicionar perante o mundo como uma nação livre e autônoma. O mesmo ocorria com a moeda local, denominada Litas, motivo pelo qual, durante nossa permanência, foi possível perceber uma forte resistência à adoção do Euro, apesar do interesse em integrar o mercado comum europeu. (Mesmo assim, a moeda lituana foi substituída pelo Euro em 1º de janeiro de 2015, à taxa de 3,45280 LTL por 1 euro). 
A primeira impressão, logo ao descer do ônibus, é de deslumbramento pela luminosidade do sol da tarde, que tinge de róseo dourado as fachadas dos prédios de elaborada arquitetura ao redor da praça onde fica nosso hotel, um dos inúmeros Radisson existentes no mundo, instalado em um prédio bem antigo com adaptações contemporâneas. Além de confortável e elegante, seu principal atrativo é a localização numa praça ampla, com várias opções de comércio e gastronomia. Joias, bijuterias, tecidos e adornos em geral. Muito linho e âmbar, produtos típicos da região báltica.
Depois de acomodada nossa bagagem, saímos a pé para explorar o ambiente próximo e completar o dia com um jantar em plena área comercial a poucos quarteirões do Hotel. Não posso me furtar de registrar aqui a elegância da prima Tucha, com sua nova aquisição, um chale tecido em malha de legítimo linho lituano, de caimento impecável.
Prefeitura de Vilnius
A excursão da manhã do dia seguinte, (21 de maio) nos coloca diante de vários ângulos da arquitetura da cidade, cuja opulência de formas expressa os valores desse povo multicultural, com relevância para a religiosidade. A cidade, também é conhecida como a “Jerusalém da Lituânia”, um lugar heterogêneo, que agrupa pessoas de 92 nacionalidades diferentes. Seus pouco mais de 600 mil habitantes representam a quinta parte de toda a população do país.



O Centro Histórico de Vilnius, datado do século XIV, foi considerado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, em 1994.
Residência do Bairro Judeu

Com seus 53 templos, sendo 36 católicos e os restantes predominantemente judaicos e ortodoxos, não é de se estranhar que tenhamos visto tantas igrejas, capelas e conventos.

Passamos pelo bairro judeu, em que a sobriedade do casario contrasta às vezes com elementos decorativos ingênuos e coloridos. Pudemos ver e apreciar, sem entrar, os prédios da administração local e o Palácio do Governo , cercado de jardins e grades artísticas.
Jardins do Palácio do Governo
Universidade


Mapa da Universidade
A universidade ocupa um conjunto de prédios representados num mapa em relevo, confeccionado em metal, afixado junto a um dos portões de entrada.

As ruas são muito bem cuidadas e ornadas com vasos de flores,quase todos de amores-perfeitos de colorido variado.
Entre as obras sacras, a Catedral – que detém também o título de Basílica, a mais alta categoria de templos católicos – destaca-se por sua imponência e tamanho, assim como pelas estátuas ornamentais de suas galerias externas e o imenso campanário que domina a praça que a cerca.
Uma das pedras do pavimento na praça da Catedral é decorada com a palavra “stebuklas” (milagre) em letras incrustadas em fundo colorido. Diz a lenda que quem quiser realizar um desejo, deve ficar de pé sobre essa pedra, fazer o pedido e rodar 360graus.
Foi exatamente nesse lugar que começou, em 1989, uma corrente humana, a "Corrente Báltica", que se estendeu através da Lituânia, Letônia e Estônia para chamar a atenção do mundo para o sofrimento, comum aos três países, durante a política de anulação de identidade nacional imposta pela União Soviética. No ano seguinte, a Lituânia recuperou o direito de falar sua língua pátria e, em 1991, o país conquistou sua independência. Desejo realizado! Milagre? Stebuklas!
Imagem de São Cassimiro na capela da Catedral
Muitas lendas em torno da vida de santos ilustram a história verdadeira ou imaginária de personagens que se perdem na distância dos tempos de riquíssima tradição oral. Uma das capelas da catedral homenageia São Cassimiro, filho do rei da Polônia que é o padroeiro da Lituânia. Na capela há uma imagem sobre a qual se acredita haver interferência divina ou do próprio santo na obra do artista que a pintou. Há uma outra igreja dedicada a esse santo, cujas torres podem ser avistadas, da calçada de nosso hotel, erguendo-se sobre a silhueta do casario do lado oposto da praça.
Igreja de Santa Ana
Outra igreja muito bonita, toda em tijolos vermelhos e linhas góticas, é a Igreja de Santa Ana. Conta a lenda que sua construção havia sido contratada a um experiente arquiteto, já entrado em anos. Acontece que, enquanto fazia o projeto, sua filha se casou e o genro, também arquiteto, arvorou-se em dar tantos palpites que o ancião, impaciente, acabou por entregar-lhe a empreitada. No entanto, terminada a obra, o templo ficou tão bonito e mereceu tantos elogios que, tomado de ciúmes, o velho chamou o genro para apreciar a vista do alto de uma das torres e, lá em cima, deu um empurrão no jovem, jogando-o ao chão e provocando sua morte instantânea.

Diante dessa igreja há uma escola de arte e, por obra de seus alunos, as árvores em frente têm seus troncos deliciosamente “vestidos” com retalhos coloridos de tecidos, malhas e crochê. Foi aí também que registrei uma das cenas que mais me encantam em todos os países da Europa que tenho visitado: as crianças, desde pequeninas, em grupos acompanhados de suas jovens professoras, atravessando o jardim para visitar o parque, brincar ao ar livre, conhecer monumentos e obras de arte.


Igreja de São Pedro e São Paulo


Visão geral do interior do templo de São Pedro e São Paulo

A Igreja da Santa Mãe de Deus, com mais de seiscentos anos, é o principal santuário da fé Ortodoxa na Lituânia.


Outro ponto interessante de nossa excursão foi a visita ao Museu do Ambar, que exibe peças de decoração, jóias e objetos de tamanhos, formas e cores diferentes feitos com essa pedra considerada o ouro do Báltico. O colorido do âmbar vai do branco ao negro, passando por vários tons de amarelo e marrom, o que proporciona uma rica variedade de combinações e efeitos. Aí ficamos sabendo que o âmbar é uma substância mineral não cristalizada, de origem vegetal, pois é o resultado da fossilização há milhões de séculos, da resina de uma determinada espécie de pinheiro atualmente em extinção. Há, portanto o risco de escassez dessa riqueza muito apreciada não apenas na área dos adornos em que é mais conhecida, mas também por suas propriedades magnéticas e aplicações em eletricidade.


O passeio matinal termina com o ônibus nos deixando a uns duzentos metros do hotel. Nesse trecho pedestre, passamos sob o único pórtico que resta da muralha medieval que cercava a cidade. Sobre o arco desse pórtico, fica uma igreja bem singular. No momento em que passamos, pudemos ouvir a música de um culto que enche a rua de sons, em plena quarta-feira: suaves cânticos de um coro em contraste com a voz grave e imperiosa do celebrante.

Um sanduíche comido às pressas ali na praça substitui o almoço. Em seguida partimos de ônibus para uma excursão ao Castelo de Trakai, a 30 km de Vilnius, construção medieval terminada no século XIV e restaurada em meados do século XX. Passadiços de madeira levam-nos sobre as águas do lago Galvé até o castelo. O edifício é bem rústico, paredes sem revestimento e escadas de madeira. Pouco mobiliário e muito pouco adorno retratam o estilo de vida dos seus habitantes, contemporâneos da cristianização do norte e leste da Europa, a partir do século XIII.


A paisagem em torno do castelo encanta, por causa dos lagos que o cercam em cujas águas se fazem ver os efeitos de um lindo entardecer.
Sempre a meninada!
Devo confessar que preferia aprofundar mais a visita a Vilnius, fartar-me de Arte e História, conhecer mais sobre os efeitos das lutas e conquistas do povo lituano na convivência de realidades tão heterogêneas, na política, na guerra, na religião. Mas devo reconhecer que, em Trakai, foi um prazer aproveitar a paz e a beleza de uma linda tarde de sol.

Só mesmo estando ali para sentir essa beleza.

Já de volta a Vilnius, ao anoitecer, na claridade teimosa do fim do dia, saímos a pé olhando as opções da vizinhança e escolhemos jantar ao ar livre, num ótimo restaurante, mesas dispostas num pátio interno muito agradável. Nossa noite terminou em perambulações pelas ruas calçadas de pedras, sob as primeiras estrelas do céu que permanecia bem azul, como se vê na foto tirada quando o relógio marcava 10h30 min.
Amanhã deixamos Vilnius em direção à Letônia.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Varsóvia, música e lembranças de guerra

19 de maio de 2014
Um dia é pouco para conhecer Varsóvia
Uma cidade variada, carregada de passado, impulsionada pela vontade férrea de um povo que acredita no valor de seu patrimônio histórico e artístico. As ruas são limpas e bem cuidadas. O único detrito que se lança ao chão, sem cerimônia, é a guimba de cigarros. Estranho... em todas as ruas, pedacinhos de cigarro não são notados à primeira vista, mas, prestando atenção, lá estão eles, jogados nos gramados e nas calçadas. 
Fico sempre atenta ao transporte coletivo das cidades que visito. Os ônibus urbanos de Varsóvia são grandes e trafegam silenciosamente nas avenidas em sua faixa própria. 
Uma linda cidade, com prédios antigos - ainda que não sejam todos originais, pois muitos deles foram quase inteiramente reconstruídos - que convivem com outros de arrojada arquitetura contemporânea. Este, aqui ao lado, todo espelhado, localiza-se no final de uma avenida ampla e forma um portal de acesso à praça da biblioteca. Reflete os prédios tradicionais ao seu redor, criando uma notável ilusão de ótica. 
Mas comecemos do início: na véspera, quando chegamos ao Raddisson Hotel, no centro de Varsóvia, lá nos esperava o guia, um espanhol chamado Antonio, que nos acompanharia na primeira metade da excursão. Ele nos avisou que viria chuva e muito frio, melhor seria estar sempre bem agasalhados. O clima local não confirmou esse prognóstico e tivemos belos dias de sol e calor moderado. Salvo essa falha desculpável, pois nem os serviços meteorológicos entendem muito bem as variações do tempo, tivemos uma boa assistência da SATO, a empresa turística que nos levaria pelas estradas dos países bálticos. 
Ônibus grande e confortável, com lugar para mais de quarenta passageiros, acolheu-nos folgadamente - os primeiros doze participantes da primeira etapa. Éramos oito brasileiros, (sendo quatro mineiros -nós - e dois casais de paulistas) e um grupo de quatro amigas peruanas que têm o costume de, uma vez por ano, deixar suas famílias para viajar juntas pelo mundo. Duas moram em Lima, uma em Miami e outra em Genebra, como tradutora de língua espanhola.
Na manhã do dia 19.05, o ônibus estacionou na porta do Hotel às 9 horas para nos levar a um “tour” de reconhecimento da bela capital da Polônia. Quando andamos de ônibus pela cidade parece que a estamos conhecendo, mas, depois, se saímos a pé, verificamos que a visão geral pouco adiantou para nos localizar e nos fazer compreender a verdadeira dimensão da cidade. Mas foi um belo passeio, com paradas estratégicas em pontos mais representativos do local. No entanto, a parte mais bonita e rica deve ser feita a pé, pisando as pedras centenárias de ruas e vielas cheias de história e emoção.
A primeira parada do ônibus foi nas proximidades do Parque Lazienki, uma maravilha verde plantada à margem de uma avenida larga. Além da beleza natural de jardins bens cuidados e árvores frondosas, o ponto principal do parque é o monumento a Chopin, o músico polonês cultuado como verdadeiro herói nacional. Uma bela escultura junto ao gramado e ao lago central mostra a reverência pela arte romântica daquele que fez sucesso em Paris mas nunca se esqueceu da terra natal, lembrada nos acordes vigorosos de várias Polonaises, peças musicais admiradas no mundo inteiro, rivalizando em popularidade com seus suaves prelúdios, sonatas, valsas, noturnos, estudos e improvisos de melodiosa sonoridade e harmonia. 

Para nosso encantamento, ao acionar um dispositivo digital num dos bancos do jardim, pudemos ouvir, numa gravação de alta qualidade, algumas das mais famosas peças musicais desse compositor. Para mim, especialmente, foi um momento de doces recordações, pois desde muito cedo sou admiradora de Chopin, não só por causa das músicas de minhas remotas aulas de piano, mas pela recordação de um dos primeiros filmes de longa-metragem que assisti quando criança, “À noite sonhamos”, com Cornel Wilde no papel de Frédéric Chopin e Merle Oberon, representando a sedutora novelista francesa George Sand. (pseudônimo de Amandine Dupin)
Depois, de ônibus, chegamos  ás proximidades do Gueto de Varsóvia, onde fica um monumento à resistência dos judeus às atrocidades nazistas. Fica no centro de uma praça, na qual são realizados diversos eventos carregados de emoção e reverência. Vimos também o monumento a Copérnico na rua Krakowskie Przedmiescle (que idioma!) e passamos perto da entrada do Jardim Botânico.

Em seguida chegamos à Praça do Mercado, centro da Cidade Antiga, cercada de belos edifícios medievais, onde, vendo as barraquinhas de toldo branco, reconhecemos o local que visitamos na véspera. Dali fomos a pé ao mirador que se debruça sobre o rio Vístula, a “praia” de Varsóvia, em nada semelhante ao que aqui se chama de praia: uma larga esplanada na margem do rio, coberta de relva rasteira, onde deve ser agradável fazer um piquenique dominical. Mas era segunda-feira, não havia ninguém curtindo a mansidão das águas nem o bucolismo da paisagem.
 O ônibus nos recolheu ali e levou-nos até à Praça do Castelo, com "pausa hidráulica" na estação do metrô e muitas fotos. A praça é ampla e bonita. Cena comum nas cidades europeias, muitas crianças, em fila, acompanhadas de professoras, entram e saem de prédios antigos que abrigam museus e bibliotecas. O Palácio Real, um prédio vermelho, destruído pela guerra, como quase todos os edifícios antigos desta cidade, foi quase totalmente reconstruído e atualmente é um museu. 
Daí em diante, o caminho se faz somente a pé. 
Passamos pelo monumento à Sereia, armada de escudo e espada, para defender a Polônia de invasores, segundo reza a lenda. A sereia é um dos símbolos de Varsóvia e não existe apenas esta que aparece na foto ao lado. Há pelo menos mais uma. A diferença entre elas está na cauda: uma tem cauda de peixe, como convém às sereias, outra tem duas caudas de serpente, enroscadas como se fosse um dragão. (A Wikipedia conta muitas histórias a respeito).  Neste ponto a excursão se dispersa, começa a tarde livre. Nosso grupo de quatro vai se aventurar a caminhar por si só, capitaneado por Tucha de mapa em punho à cata de atrações turísticas indicadas em um livrinho que Elayse consultara à noite, no hotel.

Passando sob os arcos da fortaleza medieval de tijolos cor de terra, 90% destruído na guerra e  de reconstrução recente, chegamos a uma rua tranquila, em que convivem igrejas, bares com mesas ao ar livre, vendas de lembranças típicas e uma loja de porcelanas de variados coloridos e desenhos. Pausa para descanso e uma coca-cola gelada, para ter certeza de estarmos no século XXI. Outro indicativo dos tempos modernos: furtaram a carteira com alguns euros e documentos de uma das companheiras peruanas. Nada é perfeito. 
Junto ao muro do Centro Histórico, à sombra de uma árvore, à custa de muito procurar, encontramos uma pequena estátua que comove: trata-se de um menino vestido de soldado, o pequeno rebelde de Varsóvia. Com capacete muito acima de seu número e fuzil próprio de soldados adultos, ele simboliza as crianças que acompanharam seus pais no Levante de Varsóvia contra os algozes alemães no verão de 1944, antecipando ali a derrocada do poderio nazista e prenunciando o fim da Segunda Guerra Mundial. 

Em seguida, percorrendo uma avenida larga, onde fica o Hotel Ibis, (numa praça que denominada Umschlagplatz - fácil de ler, não?), deparamos com uma surpresa impactante: um monumento lúgubre, escuro, com a aparência de escombros de um terrível incêndio. Era um vagão de estrada de ferro, coberto de dezenas de cruzes amontoadas, tisnadas como lenha queimada. Simboliza os vagões nos quais os prisioneiros judeus eram confinados e levados até os campos de concentração, condenados à morte da maneira mais infame, sem culpa formalizada nem julgamento. Nos dormentes que cobrem o canteiro central da avenida, estão gravados os nomes das vítimas que a cidade não pode e não quer esquecer. Emocionante e triste. 
Em contrapartida foi muito agradável deparar com a simplicidade da biblioteca que funciona em um prédio tradicional onde anteriormente teria sido o Palácio da Justiça, este transferido para uma construção moderna do outro lado da praça. O inusitado, no gramado fronteiro, eram os cavalos alados em metal pintado de cores fortes, uma decoração ingênua e lúdica que talvez seja alusiva a figuras da literatura polonesa e muito apropriada para uma biblioteca, salvo melhor juízo!
Enfim retornamos à Praça do Mercado, para saborear um almoço de filé com fritas, debaixo de um toldo ao ar livre.  Foi então que aproveitamos para fotografar aquele restaurante onde jantamos na véspera, aquela foto do post anterior- lembram? Depois fomos tratar do vil metal, ou seja, fazer o câmbio em que troquei 50 euros por 160$ lituanos, em preparação ao nosso destino do dia seguinte. Já fatigados de tanta andança, rumamos ao hotel para descansar, pois o dia aqui é longo e temos concerto  de piano à noite.

O ônibus da excursão nos levou às 20 horas, com o sol ainda bem alto, ao auditório para ouvir músicas de Chopin, lindamente executadas por uma pianista muito jovem de mãos abençoadas. Um cálice de espumante no intervalo e a compra de um CD que merece ser ouvido, sugerem a reflexão de que a Polônia sabe mostrar aos turistas e valorizar a arte, a história e o artista da terra. Durante esse evento, nosso grupo foi acrescido de duas jovens paranaenses, irmãs, ambas casadas e residentes em Curitiba, recém chegadas de Paris onde estiveram por uma semana. Amanhã, a caminho da Lituânia, seremos 14 na excursão.
O dia de Varsóvia se encerrou com o jantar num restaurante de decoração rural, próximo ao hotel, e minha feliz escolha foi cod fish com risoto de aspargos. Não é que eu seja boa em culinária, mas sei apreciar um bom prato. Valeu!
Não se pode dizer que conhecemos Varsóvia, mas vimos o suficiente para recordar, com respeito e admiração, essa cidade e seu povo sofrido e corajoso.